Viradas do tempo

Já é dezembro. E a chuva chegou sem cerimônia. O tempo cinza, um dia cinza em que as pessoas desfilam apressadas vestidas de cinza, misturadas à paisagem com seus guarda-chuvas pretos acinzentados.

Não sinto falta do sol. Não agora. A água é tão bem-vinda que recebo o cinza como ele sempre foi, uma outra cor.

Enquanto isso as pessoas correm. Correm, se escondem ou se encaixam debaixo das marquises até que a chuva passe. Ninguém pode ver a chuva, ninguém pode observar a chuva cair. Neste momento só eu! Sentada atrás da porta de vidro do consultório, enquanto aguardo a minha vez, aprecio o ciclo da chuva mudando a rotina das pessoas.

Uma mãe que passa apressada protegendo o filho com o próprio corpo, dois adolescentes que desistiram de correr, um senhor tentando tirar a chave do bolso para entrar no carro. E muita, muita enxurrada em volta de tudo isso.

Poderia ser só uma tarde comum? Poderia eu estar completamente envolvida com o meu celular como sempre o fiz nas filas de espera? Sim, poderia.

Mas quis o destino que eu estivesse ali, naquele lugar, naquele momento e naquelas circunstâncias. Simplesmente assistindo a vida acontecer do lado de lá do vidro.

Hoje foi meu dia de assistir. Dia de imaginar e interpretar os sinais. Dia de perceber que, além de mim, tem um monte de gente que também corre, também tenta, também desliza e também se molha! Hoje foi meu dia de aprender sem nada ouvir, de crescer sem sequer me levantar!

A vida é isso aí! Tudo depende de que lado estamos na hora H, melhor dizendo, na hora da chuva. Pode ser que neste momento você esteja no meio da tempestade e pode ser também que amanhã já seja tudo calmaria. Pode ser que a sua chuva esteja te provocando frio, medo, vontade de estar no colo de alguém. Mas também pode ser que a chuva esteja lavando a sua alma. A chuva pode estar atrapalhando seus planos ou resolvendo de vez o que precisava ser resolvido. Tudo é tão singular que a mesma chuva pode ter significados infinitos. Depende do contexto de cada um. Depende da chuva que chove dentro de nós!

Se amanhã não chover, qualquer dia desses chove. Viva a chuva! Ela também sabe lavar! E se não for a chuva, que as viradas do tempo virem você de lugar. Faz bem!

 

leila@leilarodrigues.com.br

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