Vidas

Vidas

Deixamos de ser vidas, para ser simplesmente números. Ou melhor, não deixamos de ser, nunca existimos. Não somos vidas. Somos apenas números contabilizados pelos governos. Somos milhões de brasileiros desempregados, e não milhões de brasileiros que dormem e acordam preocupados com as contas que devem ser pagas, com o alimento que deve ser colocado na mesa. Somos milhões de brasileiros na fila do Sistema Único de Saúde (SUS), aguardando para uma consulta, uma cirurgia ou algum procedimento médico. Não somos milhões de pessoas, milhões de vidas que se angustiam a cada dia, que temem por sua vida, por sua perna, por seu braço, por sua mobilidade, por sua saúde. Somos apenas números. Milhões de brasileiros à espera de um emprego, milhões de brasileiros à espera de saúde, milhões de brasileiros à espera de saneamento básico, e não milhões de brasileiros que precisam conviver diariamente com o mau cheiro em sua casa, e não milhões de brasileiros que brincam na rua em meio a cocô, e não milhões de brasileiros à espera de água potável.

Somos números. Nada mais do que isso. Nossos governantes não nos veem como pessoas. Apenas como números. Números que eles precisam nas urnas a cada dois anos, tanto na esfera municipal quanto na esfera estadual e federal. Somos apenas números que precisam ser usados como massa de manobra. Não somos vidas, não somos pessoas que têm sonhos, objetivos, ideais e que merecem respeito. Somos apenas números que agora querem mascarar. Somos apenas uma realidade que agora querem mudar. Os nossos representantes não nos veem como pessoas que agonizam em meio à violência. Os nossos representantes não nos enxergam como vidas que se aglomeram em meio ao transporte público. E, muito menos, como pessoas que acordam cedo para fazer este país acontecer. E, nunca, como pessoas que trabalham de sol a sol para sustentá-los com todos os seus privilégios, os seus supersalários, e os seus gabinetes com ar condicionado.

Nossos representantes não nos enxergam com o mesmo brilho dos olhos que enxergam as propinas que recebem. Eles não nos enxergam com o mesmo brilho nos olhos que têm pelas malas que circulam pelos apartamentos espalhados pelo Brasil. Sequer existimos. Para comprovar isso, basta dar uma volta na Unidade de Pronto Atendimento de qualquer cidade. As filas lotadas à espera de uma cirurgia ou de uma consulta pelo SUS são a prova de que não existimos para os nossos representantes. Somos apenas números, que eles querem maquiar a cada dois, quatro anos, para fingir que trabalharam. Somos apenas um número que está na fila de uma empresa, ou do Sine, todos os dias à procura do tão sonhado emprego. Somos apenas os números que eles precisam maquiar, para causar a sensação que está tudo bem. Somos apenas os números que mantêm a máquina funcionando, enquanto os representantes brincam de comandar o Brasil.

E é justamente por sermos números, e não vidas, que hoje agonizamos nas filas, que precisamos enfrentar a falta de infraestrutura nos bairros. Somos apenas planilhas, dados e estatísticas. Nada mais do que isso.

 

 

 

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