Vida e morte de rebanho

CREPÚSCULO DA LEI – ANO III – CXXXIII

VIDA E MORTE DE REBANHO

Já que o povo agora é tratado feito rebanho e morre às pencas em busca de uma “imunidade de rebanho” ‒ isso quando não abatido a tiros em vias de favela para o gozo do poder punitivo ‒,  eis que dois planos se abrem em uma dialogia de vida e morte ilustrativas: 

I.O REPRODUTOR

Rebanho tem que ter reprodutor. Um deles tem um histórico notável. Chamava-se ROQUE JOSÉ FLORÊNCIO, nascido em Sorocaba e falecido em 17 de fevereiro de 1958 – insuficiência cardíaca – com 130 anos. Isso mesmo, ROQUE morreu com quase um século e meio de existência, depois de uma vida muito... dura: era escravo reprodutor.

Para isso que ele foi comprado, para ser reprodutor de (novos) escravos e, no bom exercício da “função”, fez por bem cumpri-la, tendo produzido mais de 200 “filhos”, se é que se pode fazer essa referência parental, ajustado que era para o trato em “rebanho” de escravos.

ROQUE era um negro esguio, afinal tinha 2,18 metros de altura (mais alto que Lebron James ‒ 2,06m ‒ e fazia Michael Jordan passar vergonha ‒ meros 1,98m). Era, portanto, uma figura bastante imponente. As mãos e pés compridos (...) lhe valeram o apelido de “PATA SECA”, eis que no “rebanho de negros” não se encontravam nem mãos,nem pés, mas, sim, “patas”. Então ROQUE era o famoso (bastante) “PATA SECA”.

“PATA SECA” era, evidentemente, muito requisitado, inclusive para “fora do rebanho” ‒ segundo as más línguas “algumas brancas” se achavam no direito de usufruir do espécime ‒ e a atividade do “PATA SECA” era tão intensa que ele gozava (!?) de algumas regalias, como não ser completamente explorado  no serviço braçal, dormir em cômodo separado da “casa grande” (...), inclusive, tinha sua própria mula na qual transitava quase arrastando os pés, ou melhor, as “patas”.

Ainda falando em patas, chamava a atenção em “PATA SECA” suas canelas enormes, mas finas, bastante finas. Entendia-se que os “canelas finas” eram mais ágeis sexualmente, além de ser uma característica indicativa para se reproduzir crias machos. Significa que os canelas finas eram escravos mais caros.

Depois de muitos serviços prestados aos seus patrões, “PATA SECA” foi presenteado com 20 alqueires de terra e neles construiu sua própria casa, casando-se com Palmira e tendo com ela outros nove filhos (eita!). Quem quiser conferir pode consultar o Cartório de Registro Civil da comarca de São Carlos (SP), às folhas 017 – V do livro C no. 055 - Registro de Óbito sob o no. de ordem 7.379. Ali consta a morte de ROQUE “PATA SECA” aos 17 de fevereiro de 1958, com seus 130 anos de idade. Não pode dizer que foram “bem vividos”, afinal, era escravo do rebanho, mas pelo menos foi uma vida bem intensa.

II.O  ABATEDOR

Todo rebanho também tem seu abatedor, mas não consta nada do tal sujeito, posto que vivo ainda é e conhecido também. Ainda é conhecido por “imbrochável, imorrível e ...incomível” ‒ essa parte não está bem explicada. Ocorre que o tal abatedor – i.i.i. ‒ atua com tamanha eficácia no abate que lá foram quase meio milhão de abatidos no rebanho. O abatedouro vai a pleno vapor.

É tão famoso o “...incomível” que, vez por outra, sai até na imprensa estrangeira, no LE MOND e no NEW YORK TIMES, principalmente. Aliás, no NYT, em artigo do dia 27 de maio de 2021, publicou-se um estudo grave, ou seja, publicou-se que a intenção de abate por aqui envolvia (e envolve) um plano para levar o rebanho, ou melhor, o país “a imunidade coletiva por infecção natural, quaisquer que fossem as consequências. Isso significa – assumindo uma taxa de mortalidade de cerca de 1% e considerando 70% de infecção como limite provisório para imunidade de rebanho”, um planejamento de 1,4 milhões de mortes no Brasil, conforme a autora do artigo (Venessa Bárbara). Ou seja, ainda tem muito abate pela frente, muito parente do PATA SECA ainda vai morrer

É estranha a vida de rebanho. Com razão estava Zé Ramalho.











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