Vazio eleitoral

 

Há algo de muito errado em uma campanha eleitoral para presidente quando o principal assunto a repercutir após um debate é uma proposta sem pé nem cabeça para tirar o nome de todos os brasileiros do Sistema de Proteção ao Crédito (SPC). E mais: quando ganham as redes sociais os delírios de um candidato inexpressivo falando em uma suposta união das repúblicas socialistas da América Latina sem qualquer embasamento fático. Onde estão as propostas para, de fato, tirar o Brasil deste buraco que parece não ter fim? Esta é a questão mais importante. Não foi respondida. Se foi, não repercutiu. Nem impressionou.

O país tem hoje 13 milhões de pessoas desempregadas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Frise-se bem: 13 milhões. No entanto, os números mais recentes, referentes a junho, trazem uma realidade ainda mais absurda e desesperadora. O total de pessoas que nem trabalham nem procuram vagas chegou a 65,6 milhões. É o maior já registrado. É o número de quem mergulhou na falta de esperança absoluta ou está vivendo de gambiarras.

A disputa nacional está presa a questões anteriores à campanha. Até hoje, boa parte da discussão gira em torno de um candidato que — concordem ou não — está preso. O fla-flu ideológico que virou a política brasileira está obscurecendo qualquer possibilidade de debate sério. A questão principal, nenhum candidato responde. Se responde, não causa impacto suficiente para mobilizar os eleitores.

A conversa fiada sobre esquerda e direita não enche prato de comida. A briga inútil de rede social não gera empregos de qualidade. A ausência de um projeto maior de país coloca os brasileiros uns contra os outros e quem ganha com isso? Apenas os políticos profissionais. Essas velhas raposas mapeiam muito bem os campos ideológicos e definem o “mato em que vão lenhar”. Fica até mais fácil traçar estratégia quando uma nação inteira está dividida. Não é preciso convencer o país inteiro. Basta ajustar bem o discurso e saber abocanhar o seu quinhão de eleitores em número suficiente para se eleger.

Mas e o prato de comida? Continua vazio. E a escola pública? Continua de péssima qualidade. Enquanto os brasileiros perdem tempo discutindo questões morais secundárias (porém, não desimportantes), os problemas estruturais avançam e ameaçam a todos: ricos e pobres; empregados e empregadores; cruzeirenses e atleticanos.

Com uma campanha curta, o eleitor tem de focar sua atenção naquilo que realmente importa. E o que importa no momento é a economia. Se não gerar emprego, o trabalhador/consumidor não compra. Se ele não compra, o comércio vende menos. Com isso, a indústria produz menos. Se produz menos, contrata menos. E assim se entra no ciclo vicioso do menos, menos, menos. Todos saem perdendo.

Quando candidato bater à porta, o eleitor deve logo sapecar a pergunta: como você ajudará a economia a sair do buraco? Não importa o cargo. Essa é a questão mais importante. Não existe política social melhor que dar emprego.

Dizer que brasileiro não gosta de trabalhar é uma injustiça sem tamanho. Não se tem notícia de nenhum pai/mãe de família que durma tranquilo depois de ficar desempregado. Quem já pôde acompanhar de perto sabe como é triste. A pessoa simplesmente se sente sem dignidade. É desumano condenar milhões e milhões de brasileiros a essa pena tão dura enquanto se discute ideologia disso ou daquilo.

Ou as lideranças focam de fato nos problemas econômicos ou será criada uma nação ainda mais dividida — e pior: ainda mais empobrecida. Aí sim haverá ainda mais tempo para brigar na internet enquanto o país caminha a passos largos para voltar ao Mapa da Fome das Nações Unidas. Curtiu?

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