Vacina boa

Laiz Soares

Muito se fala sobre os chamados “sommeliers de vacina”, os “cidadãos de bem” desse nosso país amado que querem escolher qual vacina vão tomar e têm suas preferências sobre qual é a dose melhor e mais segura. As disputas políticas sujas, as notícias falsas e a canalhice fizeram muitas pessoas terem preconceito com algumas vacinas como a CoronaVac, que não só tem eficácia comprovada como já foi aceita pela União Europeia como imunização legítima que permite a entrada de estrangeiros nos países do bloco europeu. 

Em um Brasil onde mais de 500 mil pessoas já perderam suas vidas e a maioria das mortes poderia ter sido evitada por qualquer uma das doses existentes, querer escolher qual vacina tomar beira o absurdo da falta de noção e de humanidade. Tumultuar os postos de saúde querendo escolher vacinas atrasa e complica a logística de vacinação do país. É um ato mesquinho e egoísta querer escolher qual marca de imunizante alguém vai tomar enquanto milhares de famílias no mudo simplesmente perderam a esperança e a vida de quem amam por não terem tido acesso a nenhuma opção de vacina. 

Vacinar-se logo com a dose que tiver disponível é uma obrigação ética e cívica, um dever moral, pois não ficaremos livre da pandemia enquanto a maioria da população não se imunizar! Tomar a vacina não é um ato de liberdade individual e na minha opinião todos os direitos civis deveriam ser negados a quem se recusa a se vacinar, pois este é um compromisso social que impacta a vida de todos, e não só a de quem se imuniza. Vacina boa é a que tiver disponível no posto, vacina boa é a vacina no seu braço evitando a sua morte por covid-19!

Alguns municípios brasileiros já agiram diante dessa aberração de escolhas de vacinas e definiram que quem não aceitar tomar a dose que estiver disponível no seu dia de agendamento terá que voltar para o fim da fila e esperar mais para ser imunizado. Eu tenho 30 anos e, infelizmente, no ritmo ainda lento que a vacinação avança no país ‒ em especial no estado de Minas, que está bem atrás de outros estados ‒, terei que esperar ainda alguns meses para me vacinar. 

Na luta contra a pandemia, cada dia importa. Estamos correndo contra o tempo. Um dia de atraso são mortes a mais. Eu vivi isso na pele com a minha mãe, e sou muito grata a Deus e aos médicos por ela ter sido poupada. Justamente na época que seria a vez dela se vacinar, ela positivou covid e ficou uma semana internada ‒ e essa foi a pior semana de nossas vidas. Eu pensava o tempo todo: “A vacina não pode ter chegado tarde para minha mãe, eu jamais aceitarei isso”. Graças a Deus, ela teve a chance de se recuperar e se vacinar, mas esse não foi o destino de mais de meio milhão de brasileiros e brasileiras. Morreram por negligência, incompetência e negacionismo de um governo falho e inoperante liderado por pessoas irresponsáveis, desumanas, inconsequentes e, ao que tudo indica, corruptas ‒ aguardemos as próximas notícias para confirmar. 

O Brasil é o país dos absurdos. Vamos relembrar: no início da pandemia, falar de vacina era “papo de comunista”. Vacina era tema polêmico que dividia a nossa sociedade. Eu ouvi de políticos locais para eu não me posicionar sobre vacina porque era um tema que poderia me queimar, que dividia opiniões, não era consenso a importância das vacinas. O grupo ideológico no poder espalhou dúvidas, medo e mentiras sobre as vacinas ‒ e isso impacta até hoje no combate à pandemia, pois muita gente ainda não quer se vacinar! Em meio a uma crise sanitária, social e econômica na qual a vacina é a única solução, nada pode ser mais trágico e decadente do que isso. 

Quando os dados, as evidências e a ciência não são mais levados a sério por parte significativa de um povo em uma sociedade, o que nos restará? O que nos salvará? Esperaremos um milagre? Pensamento positivo? Variantes e novas cepas, como a indiana, estão chegando no país e são uma ameaça grave. Ou a gente começa a pressionar e cobrar o poder público em todos os níveis por mais eficiência e seriedade no combate a essa pandemia ou o fundo do poço ainda pode ter um porão ‒ nada é tão ruim que não possa piorar. 

 

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