UPA afirma que normalizou irregularidades na gestão de pacientes com covid-19

Denúncias mostraram falta de medicamentos e uso incorreto de oxigênio; Prefeitura abre processo administrativo contra empresa responsável pela unidade

Bruno Bueno

As irregularidades da UPA Padre Roberto na gestão de pacientes com covid-19, apontadas pela Comissão de Saúde da Câmara na última semana, foram normalizadas. A informação foi confirmada por representantes da própria unidade que responderam aos questionamentos do Agora e da comissão na tarde de ontem, em visita ao hospital. 

As informações foram passadas informalmente, já que a direção da unidade informou que não pode responder a questionamentos da imprensa sem prévia autorização da Prefeitura de Divinópolis. O Agora procurou o Executivo, por meio da assessoria, para conseguir a autorização, porém, até o fechamento da entrevista, não tinha obtido resposta.

Relembre

Os problemas da unidade de saúde foram divulgados no último dia 8, quando a Comissão de Saúde, composta pelos vereadores Zé Braz (PV), Lohanna França (CDN) e Israel da Farmácia (PDT), recebeu denúncias de funcionários do local. Conforme os trabalhadores, a UPA estava operando sem a medicação necessária para aplicar sedativos nos pacientes com covid-19. 

Os integrantes da comissão foram até o local e confirmaram as denúncias. Além disso, a unidade estava com falta de bombas infusoras e utilizando oxigênio erroneamente, devido a problemas técnicos ‒ o item estava sendo usado, sem necessidade, a nível de 100% para todos os pacientes.

Denúncia

A reportagem esteve no início da tarde de ontem na UPA e conversou com o presidente da Comissão de Saúde, vereador Zé Braz (PV). O parlamentar confirmou que recebeu a denúncia das irregularidades a partir de funcionários da unidade.

— Recebemos uma denúncia de dois profissionais da saúde da UPA afirmando que a unidade estava sem medicação, falta de bombas infusoras, além do mau uso do oxigênio, que estava sendo colocado em 100% para todos os pacientes, mesmo sem necessidade. Viemos até a unidade e verificamos que a denúncia era verdade. Após isso, encaminhamos para o secretário de Saúde, Alan Rodrigo — afirmou.

Com a falta de medicamentos, a UPA precisou utilizar de fármacos alternativos para sedar os pacientes. Zé Braz afirma que a responsabilidade de dizer se os remédios são ideais para esse tratamento é dos médicos da unidade.

— No momento que verificamos, havia uma medicação alternativa que estava sendo utilizada, já que os fármacos ideais não estavam disponíveis. Eu, como enfermeiro, não posso afirmar se os medicamentos servem para sedar pacientes, isso é uma conduta médica. Na realidade, o correto seriam os medicamentos chamados de hipnóticos — explicou.

Resolvidas

Ainda segundo o parlamentar, as principais irregularidades constatadas pela Comissão de Saúde foram resolvidas pela UPA. Entre elas, Zé Braz considera a resolução do impasse envolvendo a dosagem incorreta de oxigênio como mudança mais ideal.

 — Não existia ar comprimido. No último sábado, foi instalado um compressor que resolveu o problema, já que, sem esse dispositivo, todos os pacientes estavam recebendo 100% de oxigênio, mesmo sem necessidade. Agora haverá essa mistura entre ar comprimido e oxigênio, o que é o ideal — considerou.

O vereador também falou sobre as bombas infusoras, dispositivos que servem para a regulação de medicamentos e estavam em falta durante a fiscalização.

— As bombas infusoras são extremamente necessárias, já que regulam a quantidade exata e milimétrica da droga que o médico seleciona. A maioria das bombas foi disponibilizada semana passada e o restante entregue nesta semana — ressaltou.

Insuficiente

Ainda segundo o vereador, a quantidade de medicamentos enviados pelo Estado é insuficiente para suprir a alta demanda da UPA.

— O quantitativo enviado pelo Estado é completamente insuficiente. Já tentamos contato com o superintendente regional de Saúde, Júlio Barata, mas até o momento ainda não tivemos um resultado positivo. A população de Divinópolis pode ter certeza que a Comissão de Saúde vai continuar investigando e identificando problemas que atrapalhem nossa cidade — disse.

Vale ressaltar que, na última quarta-feira,  a unidade ficou fora da distribuição de medicamentos para sedar pacientes com covid-19. Na macrorregião Oeste, 14 hospitais foram contemplados, incluindo o Complexo de Saúde São João de Deus, que recebeu 2.900 insumos.

Estado

A reportagem questionou a Secretaria de Estado de Saúde (SES) a respeito da falta de medicamentos para a UPA Padre Roberto. Em nota divulgada, o órgão, por meio da assessoria, respondeu.

— A SES esclarece que, devido ao cenário preocupante da pandemia, Estado e União têm feito aquisições de medicamentos do kit intubação. Para a macrorregião Oeste foram distribuídas mais de 44 mil unidades do kit intubação. A UPA Padre Roberto recebeu  630. O que pode ser conferido no link https://coronavirus.saude.mg.gov.br/transparencia/distribuicao-de-medicamentos-para-intubacaReforçamos, porém, que é fundamental que as instituições continuem a realizar as compras destes medicamentos para evitar fragilizar a rede e agravar mais ainda uma crise sanitária — diz a nota. 

A secretaria explica ainda que o monitoramento é feito a partir da autodeclaração e preenchimento de formulário, e que assim que cada remessa chega ao estado, o resultado do monitoramento semanal é analisado para distribuição aos hospitais em situação mais crítica e conforme disponibilidade do estoque. A sugestão de distribuição, segundo a SES, é validada junto a uma comissão da SES-MG e do Cosems-MG.

A nota segue afirmando que o preenchimento do link é uma necessidade emanada das deliberações do comitê extraordinário e não garante o recebimento de itens oriundos de compras estaduais ou federais. 

— Portanto, o Estado tem efetuado apoio para instituições que estão em colapso assistencial iminente ou efetivamente instalado e os envios não têm caráter econômico, visando abrandar o impacto do aumento de preços verificado no mercado nacional — conclui a nota. 

O Agora questionou a farmacêutica responsável pelos pedidos de medicamentos para a UPA Padre Roberto. A profissional informou que realiza o preenchimento do formulário semanalmente e que envia ao Estado sem atrasos, não justificando, assim, a falta dos insumos.

Processo

Mesmo com o IBDS afirmando que resolveu as irregularidades apontadas pela Comissão, a Prefeitura Municipal abriu, na tarde de ontem, um processo administrativo contra a empresa. Em nota divulgada pela Comunicação, o Executivo explicou o motivo da abertura do processo.

— Segundo o comunicado de abertura do processo, o mesmo se destina a apurar possíveis irregularidades nos serviços prestados pelo instituto, constatadas pela Comissão de Saúde da Câmara. (...) O processo administrativo prevê a apuração na contratação, inconsistência nas prestações de contas e prestação inadequada dos serviços — informou.

O IBDS foi contratado em 2019, após licitação e concorrência pública. O instituto é responsável por gerenciar a UPA Padre Roberto por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme a Prefeitura, a equipe de Vigilância em Saúde continuará investigando possíveis irregularidades.

 

Foto / Jornal Agora

Legenda / UPA sanou irregularidades apontadas pela comissão 

 

 

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