Uma fábrica de vencedores

Profissionais de diversas áreas da comunicação iniciaram sua trajetória na redação e gráfica do jornal Agora

José Carlos de Oliveira

Lá se vão 50 anos de lutas e histórias, completados em 1º de junho de 2021. E, nesta trajetória de cinco décadas de existência, são inúmeros os profissionais, reconhecidos ou não do público leitor, ouvinte ou telespectador, que deram sua parcela de contribuição para tornar realidade o que foi, é e será para sempre, o Agora: um retrato fiel da vida e da luta da população desta terra do Divino, contribuindo com suas páginas e textos para tornar imortais pessoas que de alguma forma contribuíram e/ou ainda contribuem para escrever a história da cidade e região.

Normalmente a sociedade só valoriza o profissional pelos seus grandes feitos, pelos prêmios que conquista ao longo de sua jornada ou pelo sucesso que alcança em sua área de trabalho, sem dar valor àqueles que no anonimato do dia a dia escrevem a verdadeira história, agindo nos bastidores para levar à população inúmeras informações. Pessoas e profissionais que não inflam seus egos com o sucesso de seu trabalho, mas que na realidade são molas importantes e essenciais de toda a engrenagem.

Essa é uma grande verdade. E assim também se resumem os 50 anos do Agora, em que heróis reconhecidos e anônimos ‒ uns que já se foram deste mundo e outros que ainda vivem entre nós ‒ contribuíram com seu suor e trabalho para construir as páginas desta rica história de lutas, lágrimas e sucesso.

Pode até ser que, nos dias de hoje e sempre, a sociedade valorize alguém pelo que é, e não apenas pelos e seus feitos e conquistas, pois o sucesso é realmente algo que dá status e alimenta o ego, mas a verdade é bem mais profunda que isso: o que realmente leva um trabalho a ser bem feito e reconhecido por todos são as pequenas vitórias, o esforço de cada um e as batalhas superadas ao longo de cada jornada.

No Agora sempre foi assim, desde os seus diretores até o mais humilde de seus funcionários, todos têm sua parcela de contribuição em cada edição que chega à casa dos leitores. Ninguém chega a algum lugar sem ter nos bastidores o apoio que dê suporte a seu trabalho.

 

O começo de tudo

O Agora nasceu do sonho e do ideal de profissionais, cada um em sua área, que se uniram para escrever a história. E, quando tudo começou, ninguém poderia sequer sonhar com aquilo que representaria, para Divinópolis, o Agora, com o passar dos anos. De quinzenário, semanário, diário, ao que é hoje, com o impresso e em suas reportagens divulgadas pelas redes sociais valorizando os fatos e o povo desta terra.

Tudo começou nos fim dos anos 60, com o Agora Literário ‒ uma publicação artística voltada mais para a poesia, contos e poemas ‒, editado na época por Osvaldo André de Mello, Lázaro Barreto e Felipe Augusto, que se juntou em seguida à turma do “O Regionalista”, jornal quinzenal que tinha à frente Vanir Vasconcelos de Menezes, Jacques Guimarães e Marcius Sena.

Naquela época, assim como nos dias de hoje, sonhar era possível, mas as dificuldades financeiras dificultavam tornar os sonhos realidade e era preciso bem mais que esforço pessoal para levar adiante qualquer iniciativa. E foram justamente as dificuldades que fizeram nascer o que é ainda hoje o Jornal Agora.

No início dos anos 70, em 1971, mais pessoas ‒ cada uma em sua área de trabalho ‒ se juntaram ao pequeno grupo para fundar o Agora, um jornal impresso, que teria sede e gráfica própria, produzindo com seus próprios profissionais as primeiras edições. Nas caixas de tipo ‒ letras, uma a uma ‒ e na impressora plana manual nascia o primeiro número do jornal, em 1º de junho.

Com a chegada de Pedro Magalhães de Faria, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, Afonso Salgado, Fernando Teixeira de Oliveira, Ivan Silva, José de Arimathéa Mourão e José Lúcio Fonseca, nascia o semanário Agora, publicação com notícias locais e regionais, que chegou na época a ter 3 mil assinantes.

 

Novos passos

Já sem a turma do Literário, que deixou a sociedade ainda nos primeiros meses da união por não concordar com a nova linha editorial, o Agora foi galgando novos degraus. De semanário, foi a bissemanário e a diário num piscar de olhos, tudo ainda sendo feito em caixas de tipo ‒ vale ressaltar que tipo são as letras do alfabeto, que eram compostas em compunidores, formando as frases e textos, e posteriormente as matérias eram divididas em colunas nas páginas, tudo manualmente ‒ e na impressão manual.

Para se tornar diário, foi necessário bem mais que dinheiro e material humano, foi preciso contar com o esforço de cada um. Compor textos em computadores e caixas de tipo, paginar as páginas, pegando texto por texto, colocar os títulos, dividir em colunas (nas bulandeiras) e, em seguida, montar as duas páginas na rama de uma impressora, para imprimir manualmente, requeria bem mais que tempo, era tarefa para quem realmente gostava daquilo que fazia

Para entregar os jornais nas bancas e chegar às casas dos leitores era preciso, acima de tudo, amor pela função. Havia hora para começar no trabalho, mas ninguém sabia ao certo quando o serviço ficaria pronto, só tinha a certeza de que, pela manhã, o jornal teria que estar impresso e pronto para ser levado às casas dos assinantes.

Quando o jornal passou a ser diário, em 1978, circulando de terça-feira a domingo, o Coronel Faria (na época tenente da Polícia Militar), à frente da direção, juntamente com Antônio Eustáquio Rodrigues, reuniu os funcionários e perguntou se topariam a empreitada, pois a tarefa de fazer jornal diário em tipo ‒ mas na época já contando também com uma linotipo ‒ não seria uma tarefa das mais fáceis. A impressora continuava plana, mas já era automática.

Foram passando os anos, e já em novo endereço, na avenida 1º de Junho ‒ antes a gráfica e redação eram na avenida 7 de Setembro ‒, o jornal seguiu seu processo de evolução em seu parque gráfico, passando para a computação e impressora a laser (sistema nylon print) e pouco depois chegando a off set. Os prelos (para fazer a prova para correção), as mãos sujas de tinta e a composição na linotipo passaram a fazer parte da história e do passado. Já não se precisava ter um arquivo de clichês ‒ fotos gravadas em chumbo e pregadas a uma madeira ‒ para manter sempre atual o jornal.

Hoje, ainda com seu impresso, mas já ocupando também espaço nas mídias sociais, o Agora segue seu processo de evolução e modernização, escrevendo dia a dia novos capítulos em sua rica história.

 

Escola

Mais interessante e emocionante ainda que a própria história do Jornal Agora como empresa é a escola que o diário se tornou ao longo dos anos, dando oportunidade a profissionais que hoje estão espalhados por todos os cantos do Brasil, e muito outros que aqui aportaram, tiveram oportunidade de trabalhar na empresa, mas que hoje abraçaram novos caminhos em sua vida profissional, mas sem deixar a cidade, adotando Divinópolis como sua nova casa.

São pessoas que já não prestam serviço ao Agora, mas que, mesmo longe, seguem fazendo parte da história, com seus passos ainda registrados na memória dos amigos e nas páginas de cada uma das quase 13.000 edições deste diário.

 

Profissões do passado

Junto com a evolução em seu parque gráfico, também em relação aos seus funcionários, o Agora foi acompanhando a evolução dos tempos. Profissões antes necessárias e essenciais para colocar o exemplar do jornal nas bancas foram extintas ao longo dos anos e hoje fazem apenas parte da história. Tipógrafo, chapista, linotipista, paginador eram algumas delas, mas que hoje estão apenas nas lembranças de quem viveu e trabalhou naqueles tempos.

 

Uma vírgula

Quem está de fora nem de longe pode imaginar como teria sido difícil o trabalho para tornar o jornal diário tempos atrás, quando a carência de profissionais, mas principalmente de material gráfico para concluir o trabalho, fazia toda a diferença.

Pois é. Todos sabemos que uma vírgula pode mudar todo um texto, mudar uma opinião ou até mesmo sumir com seu dinheiro: R$ 2,55 / 25,5. A vírgula pode ser uma pausa… Ou não: “Não, espere”/“Não espere”. A vírgula muda uma opinião: “Não queremos saber!”/“Não, queremos saber!”.

Pois bem, esse também é um cuidado que os trabalhadores da gráfica tinham que ter compondo textos – na caixa de tipo ou em uma linotipo – de professores consagrados de Divinópolis, como Carlos Altivo, Mercemiro Oliveira Silva, José Dias Lara, Edson Gonçalves, professor Odilon Ferreira Santiago ‒ muito se aprendia com eles, mas se sofria também, tinha-se muita raiva.

Mas raiva, por quê? Texto é texto e é só compor e pronto... Puro engano. E, quando não havia como concluir o trabalho, a falta de material impedia isso? Não entenderam nada, não é mesmo?

Explico: numa linotipo, compunha-se uma linha por inteiro – em uma, duas, ou até três colunas – para ser fundida em chumbo, e não raras vezes as últimas matrizes (fim da linha), principalmente quando eram mais finas, acabavam se quebrando, deixando a gráfica em falta de material, e o linotipista tinha que se virar para levar o trabalho a contento, acabando por, muitas vezes, suprimir algumas vírgulas, ou usar pontos mais finos (o ponto tinha várias espessuras justamente para que a linha ficasse completamente ajustada, do contrário jorrava chumbo para cima e queimava a cara do profissional).

Um pequeno causo, mas real, aconteceu no Agora naquela época. Inconformado com seus textos saírem no impresso com pontos no lugar de hífens (traços de união), o professor Odilon Santiago escreveu em uma de suas colunas semanais apenas críticas ao profissional. E era justamente eu quem compunha e paginava sua coluna.

Nada demais em publicar a coluna dele nos criticando, mas tinha que ter uma resposta à altura. Para ocupar o espaço certo nas páginas, matérias e colunas tinham que ter um número de caracteres predeterminado e eram compostas em corpo de texto definido (normalmente no 10), e eu fiz questão de compor a coluna dele (naquele dia) no 8, para sobrar espaço (de uma coluna) na página, onde pudesse responder.

E foi assim que aconteceu. No outro dia, quando recebeu o jornal em sua casa, o professor teve a resposta que pediu e nunca mais tocou no assunto. Ah, a resposta? Apenas expliquei a ele que: “Quem não tem cão, caça com gato”. E, como não tínhamos matrizes de traços de união (hífens), o negócio era “engolir” mesmo os pequenos pontos, até que o jornal tivesse condições de repor (comprar) as matrizes quebradas.

 

In memoriam

Lembrar nomes é sempre uma tarefa difícil, pois sempre acabamos por deixar uns e outros de fora, mas nestes tempos de pandemia de covid-19, quando perdemos amigos que fizeram parte da história ‒ Edmar Assis, José Eustáquio Monteiro e Gilberto impressor –, é hora de nos lembrarmos de alguns daqueles que já se foram, mas que nunca deixarão de fazer parte desta longa história.

São diretores, funcionários, colunistas e colaboradores que, de uma forma ou de outra, foram e continuam sendo responsáveis por uma parte de tudo que o Agora representa hoje para Divinópolis, região Oeste e para a imprensa de todo o interior de Minas Gerais.

Pessoas como Itamar Oliveira, Antônio Eustáquio Rodrigues (o eterno Tonico), Marçonilio (impressor), Jacques Guimarães (linotipista e um dos fundadores do Agora), Nunes e Guedes (mecânicos que vinham de Belo Horizonte apenas para consertar as linotipos, quando estas estragavam), José de Arimathéa Mourão, Ivan Silva, Maria José Faria Botelho, Carlos Alberto Justo Dias (Beto Carlos), professor Odilon Ferreira Santiago, Edson Gonçalves, Roberto Cruz (Rou) e Jorge Miranda Coelho são alguns destes nomes a quem devemos sempre prestar nosso agradecimento, homenagens e reconhecimento por tudo que representaram para o jornal.

 

Causos e casos

Ao longo dos anos, muitos casos e causos fizeram parte da história do Agora e, se fosse escrever sobre todos eles, teria-se que editar um livro, com centenas de páginas. Mas vamos citar alguns.

 

  •   Certa vez, quando a gráfica ainda era na 7 de Setembro, houve uma ameaça de bomba e a Polícia Militar compareceu, fechou o quarteirão para fazer uma varredura no Agora.

Tivemos que sair todos e fomos para o Bar do Caratinga, na esquina, quando de repente o Du (impressor) volta correndo para o jornal, deixando todos sem entender nada.

— O que foi, Du?

— Tá louco, meu, deixei minha carteira com todos meus documentos lá. Vai que tem mesmo a bomba e explode tudo. Eu ia morrer assim mesmo cara, minha foto está em meus documentos — brincou ele.

 

  •   Em determinada época, depois de o jornal estar pronto, paginado e já na impressora – tínhamos que sair da oficina de madrugada, para ir atrás do José de Arimathéa, na casa dele, para ele corrigir e dar o ok. Era um “porre” só.

 

  •   Tínhamos na época o hábito de fazer títulos chamativos, em letras grandes, que normalmente cabiam poucas palavras na capa do jornal. O problema era que esses tipos (letras) eram feitos de madeira, que empenavam com o tempo, e tinha-se que ficar calçando letra por letra ou então reforçando o padrão da impressora para que ficasse nítido e nem sempre se conseguia aliar isso à perfeição. No outro dia, só se escutava a “choradeira” dos assinantes pelo fato de o jornal ter ficado mais claro em algumas letras. Era duro, mas era divertido.

 

  •   Certa feita, quando a gráfica do Agora ainda era na avenida 7 de Setembro, o impressor (acho que era o Vlamirsinho, na época) se esqueceu de apertar os parafusos da rama – com as duas páginas na impressora – e, ao ligar a máquina, as páginas foram lançadas longe, indo parar tipos (letras) até em frente à Escola Dona Antônia Valadares, e foi-se para o espaço todo o trabalho feito. E o que é pior: o jornal ficou sem circular alguns dias, pois tinha-se que catar tipo por tipo, redistribuir nas caixas, para recomeçar o trabalho todo do zero. E isso levou alguns dias.

 

(BOX)

 

Agora 2021: heróis, conhecidos e anônimos

 

História contada, chegamos ao presente. Fazem parte atualmente do Agora pessoas que estão na linha de frente e têm seus nomes conhecidos pela cidade, mas há também aqueles que contribuem no dia a dia, e que devem ser lembrados e aplaudidos.

 

Diretora: Janiene Faria

Editora-chefe: Gisele Souto

Revisora: Ana Laura Corrêa

Diagramadores: Gabriela Almeida e Zequinha Oliveira

Repórteres e colunistas: Bruno Bueno, Matheus Augusto, Jorge Guimarães e José Carlos Oliveira; Maria Cândida, Davi Raposo, Domingos Sávio Calixto, Israel Leocádio, Fernanda Ferreira, Marco Aurélio Braga, Renata Rachid, Elmo Fernandes, Amnysinho Rachid, Flávio Ricco, Welber Tonhá, Wagner Pena, Augusto Fidélis, João Carlos Ramos, José Raimundo Bechelaine, Leila Rodrigues, Zélia Brandão e João Carlos Ramos.

Colaboradores: Pollyanna Martins, Cíntia Lemos, Gilvana Dolher, Fabrício Geraldo, Gabriel Rodrigues

Impressão: MF equipamentos gráficos LTDA

 

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