Tributo a Roque Camêllo

Casas, cidades, regiões e países são os espaços em que transcorre a vida dos seres humanos ditos civilizados. São partes integrantes da história pessoal de cada um de nós.

A cidade de Mariana entrou fundo na existência deste cronista. Lá fomos pela primeira vez no ano fatídico de 1964. Era um passeio de férias, promovido por monsenhor Hilton Gonçalves. Ele quis levar, para conhecer Ouro Preto e Mariana, os jovens da Academia de Letras do Seminário Diocesano São José, de Divinópolis.

Cinco anos depois, lá retornaríamos para ficar. A partir de fevereiro de 69 foram três bons anos, período em que fizemos o curso de teologia. Corriam tempos tenebrosos. O Brasil estava mergulhado nas arbitrariedades da ditadura civil-militar, dos generais-ditadores, da censura à imprensa, do AI 5, de torturadores como o coronel Brilhante Ulstra e outros criminosos. Alheios ao mundo externo, ali vivemos experiências inesquecíveis, na inocência dos nossos vinte anos. Nessa idade, quem não é inocente?

Portanto, tudo que diz respeito à velha e querida Mariana nos interessa. Dos atentados ao seu meio-ambiente à sua história e cultura plurisecular. Eis que o professor Arnaldo de Souza Ribeiro nos põe nas mãos seu livro mais recente: “Tributo ao Professor Roque José de Oliveira Camêllo”. É uma coletânia de doze textos, nela incluído o esclarecedor prefácio do acadêmico Francisco José dos Santos Braga, membro de várias instituições culturais, entre elas a Academia Divinopolitana de Letras (ADL). Costurando ensaios e discursos, Arnaldo Ribeiro construiu não apenas um memorial das realizações do homenageado, mas uma contribuição à história de Minas Gerais. Não por acaso, as páginas abrem-se com uma citação de Camêllo, que bem expressa um posicionamento historiográfica e filosófico: “A partir de Mariana, o cristianismo se irradiou para todos os horizontes mineiros, civilizando e educando”.

O livro encerra-se com um texto em que o professor Roque filia-se à tese de que o inconfidente Cláudio Manoel da Costa não é um suicida, como oficialmente se declarou, mas teria sido assassinado.  Como se vê, a ditadura dos Garrastazus, dos Fleurys e dos Ulstras não inovou na prática de ‘suicidar’ os confinados e torturados nas suas masmorras.

Enfim, as páginas e parágrafos da obra em questão devem ler-se e reler-se mineiramente, nas linhas e nas entrelinhas, no que dizem e sugerem, como também no que deixam de referir. Porque é assim que os mineiros falam e escrevem.    jorababech@gmail.com

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