Trabalhos de remoção no Cemitério da Paz podem durar 50 anos

Famílias reclamam de falta de ação concreta da Prefeitura, que afirma aguardar desenrolar jurídico, além de alegar alto custo

Paulo Vitor Souza

Prestes a completar seis meses, a situação do Cemitério da Paz, na região central de Divinópolis, ainda se arrasta. O desabamento do muro, ocorrido no dia 31 de janeiro último,  soterrou dezenas de túmulos. O caso foi judicializado e famílias cobram a solução do problema, que envolve o recolhimento e identificação dos restos mortais que hoje estão debaixo de terra.

Apesar de a Prefeitura ter realizado trabalhos para impedir novo desabamento, as perspectivas de reparo no cemitério não são boas. Em entrevista ao Agora, o assessor de comunicação da Prefeitura explicou que a situação aguarda desenrolar jurídico e que os trabalhos técnicos para identificação dos restos mortais podem levar de 40 a 50 anos. 

— Infelizmente nos encontramos ainda neste quadro, uma realidade muito próxima daquilo que aconteceu. Logo depois do desabamento foi feito um trabalho de contenção com lonas, pela Prefeitura e Corpo de Bombeiros. A questão hoje está na Justiça, foram formados grupos que representam juridicamente as famílias. Estamos aguardando algumas definições — disse o porta-voz da Prefeitura.

Até 50 anos 

Recentemente, estiveram em Divinópolis, a convite da procuradoria geral do Município, integrantes da área técnica da Polícia Civil (PCMG), que realizaram análises no local para mapear os procedimentos que poderão ser aplicados para a identificação dos restos mortais.

— Os números apresentados, não só para a Prefeitura, como para representantes da empresa e das famílias, são de que um trabalho de identificação através de DNA pode durar de 40 a 50 anos e isso teria um custo de aproximadamente R$ 20 milhões. Esta é a estimativa da Polícia Civil para se fazer essa verificação. A Prefeitura defende a ideia de que seja contratada uma empresa de arqueologia e se remova daqui todos os restos mortais dentro do maior respeito, dentro de todos os cuidados arqueológicos, técnicos e emocionais, e que estes restos sejam levados para algum lugar até que a coisa caminhe na Justiça, mas alguns representantes das famílias têm a colocação de que estes restos mortais só devem sair daqui quando já forem direto para a identificação. Essa falta de acordo vem travando uma celeridade maior — pontuou.

O assessor também fala que ainda não se sabe quais serão os próximos passos, uma vez que a questão aguarda desenrolar jurídico.

Famílias

Com o grande número de famílias que tiveram túmulos de parentes atingidos pelo desabamento, foi criada uma associação representativa na qual os envolvidos estão sendo instruídos e representados juridicamente.

Uma das representantes das famílias, Andréa Maria Maciel, rebate a fala do representante da Prefeitura. Segundo ela, o Município não ofereceu nenhum plano concreto de solução do problema.

— Tivemos muitas reuniões entre os advogados, a Prefeitura e nós, da associação. Mas a Administração, os advogados da obra e da construtora, em cada reunião, vinham com ideias mirabolantes, mas nada de concreto, nada documentado, nada realmente que pudéssemos contar, foi tudo verbalmente. A última reunião que tivemos foi com os peritos da Polícia Civil e com os nossos representantes. Eles só nos expuseram a dificuldade no reconhecimento dos ossos, mas não estimaram tempo e nem valores, porque não tinha como fazer.  A associação fez tudo para resolver amigavelmente  — pontuou Andréa.

As famílias relatam descaso por parte das empresas envolvidas na construção do muro que cedeu ao lado do cemitério. De acordo com Andréa, os advogados da Serra Dourada Empreendimentos e Gerais Engenharia, com o início da pandemia, deixaram de responder às demandas da associação. 

— As reuniões se arrastaram por quase três meses e nós na esperança de que se resolvesse amigavelmente. Na penúltima reunião em que ficou marcado de eles [advogados] levarem um acordo por escrito, eles não compareceram e não responderam nossos advogados — apontou.

Os advogados da associação dos familiares entraram em contato com empresas de arqueologia que afirmaram ser possível a identificação e remoção dos restos mortais. Ainda conforme Andréa, a proposta foi repassada à Prefeitura, que também não respondeu.

— A ideia da empresa de arqueologia não foi ideia da Prefeitura, muito menos uma proposta. Foi levada por nós. Eu entendo que estamos em ano eleitoral e eles estão querendo sair da reta, mas isso não vai acontecer, porque somos um número muito grande de familiares. Nós vamos lutar até que se resolva — finalizou Andréa Maria Maciel.

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