Trabalhadores descobrem que foram usados como ‘laranjas’ de ex-patrões

Suspeitos utilizaram nome dos subordinados para abrir contas, passar cheques e alugar imóveis; dívidas podem chegar a R$ 300 mil

Bruno Bueno

Laranja é, com toda certeza, uma das palavras mais flexíveis da língua portuguesa. Sinônimo de cor e fruta, o termo ganhou, nos últimos anos, um significado específico no Brasil. Trata-se da pessoa que, voluntária ou involuntariamente, empresta nome, documentos ou conta bancária para alguém que efetue transações financeiras fraudulentas ou que visem driblar o imposto de renda. A situação ocorre, principalmente, na política.

Contudo, quem acha que esta prática criminosa acontece somente em grandes centros está enganado. Segundo apuração exclusiva do Agora, a situação tem acontecido com frequência na região Centro-Oeste, inclusive em Divinópolis. A reportagem teve acesso, na última semana, aos casos de dois trabalhadores, uma de São Gonçalo do Pará e um de Nova Serrana, que tiveram seus nomes usados em Divinópolis. Embora não se conheçam e tenham ex-patrões distintos, ambos caíram na mesma cilada: tiveram os nomes usados pelos patrões. O homem teve um prejuízo de mais de R$ 30 mil, já o da mulher pode chegar a R$ 300 mil.

Primeiro caso

O primeiro caso trata-se de E.G.R. A mulher, de São Gonçalo do Pará, que vinha para Divinópolis para trabalhar como cortadora de peixes em um estabelecimento no bairro Nações, depois foi convidada para atuar, após os patrões ganharem a sua confiança, na própria residência do casal. Em entrevista à reportagem, ela deu todos os detalhes do começo do trabalho.

— Eu comecei a trabalhar para eles uma vez por semana na loja, depois a gente foi prolongando, até que eu passei a trabalhar dentro de casa. Eu tinha total acesso, eles viajavam e eu ficava cuidando da residência, já teve vezes que fiquei mais de 15 dias sozinha, era uma rotina. Nossa relação era forte. Chegou ao ponto da minha própria filha me dizer que eu tratava minha patroa como se fosse mais filha do que ela — disse.

A mulher também comentou sobre o começo da pandemia, época que, segundo ela, a relação com a patroa começou a apresentar problemas.

— Estávamos muito bem, até que veio a pandemia. Quando começou, eles foram para um sítio e deixaram eu e outro funcionário responsável pela loja e a residência. Um dia ela se revoltou por eu fechar a loja mais cedo para ir para São Gonçalo do Pará. Ela disse que eu não deveria ir antes de 19h30, horário que o estabelecimento fechava. Eu falei que não tinha ônibus depois das 17h, mas ela me xingou muito. Até chorei. Ela me humilhou pelo menos três vezes, com palavras e ações. Uma vez até se revoltou por ciúme do marido, achando que eu tinha alguma coisa com ele — explicou.

Emprestado

Mesmo com os xingamentos, a mulher continuou trabalhando para o casal. Com isso, E.G.R, levada pelo laço que tinha com a mulher, aceitou que a patroa abrisse a empresa e duas contas bancárias em seu nome, alegando que precisava resolver algumas pendências. 

 — Um dia a minha patroa pediu meu nome emprestado. Além disso, ela me pediu para abrir uma conta em duas agências bancárias. Como eu enxergava uma relação entre nós de mãe e filha, acabei cedendo. Não me importei que era ilegal, eu fiz de graça só para ajudar — afirmou.

Contudo, ela não podia imaginar que a então patroa iria passar mais de 100 cheques em seu nome. Segundo o processo judicial, que já corre na Vara do Trabalho de Divinópolis, a dívida mínima chega a R$ 20 mil, mas pode alcançar a marca de R$ 300 mil, visto que cada um dos 100 cheques tinha valor entre R$ 2,5 mil a R$ 3 mil. Em audiência, o juiz concedeu aos ex-patrões o prazo de 40 dias para apresentarem todo o débito quitado, o que não foi feito pelos ex-empregadores. A mulher, apesar de tudo, ainda tem esperança de, pelo menos, fazer com que a ex-patroa pague a dívida. 

 — Estamos pedindo que ela pague, pelo menos, a dívida que ela fez. Hoje são mais de 100 cheques no meu nome, um valor enorme que eu não consigo pagar. Ela aproveitou da minha boa vontade, da minha ingenuidade, e fez isso comigo — salientou.

Reclamações

A defesa de E.G.R também reclama de outras situações ocorridas enquanto a mulher trabalhava no estabelecimento. Segundo os advogados, a mulher ganhava, no último semestre de 2018, apenas R$ 200 por mês para trabalhar como doméstica, além de uma diária de R$ 50 para exercer a função de cortadora de peixes.

Além disso, a funcionária, conforme a defesa, era obrigada a fazer horas extras no local, chegando a realizar uma carga horária de 76 horas semanais, tendo, inclusive, de trabalhar, em algumas oportunidades, de domingo a domingo. O processo também diz que os ex-patrões não realizaram o pagamento de verbas rescisórias, férias, gratificação natalina e depósitos do FGTS. Os superiores também não assinaram a carteira de trabalho da mulher, bem como se recusaram a liberar a guia para pagamento de seguro-desemprego.

Com o pagamento dos danos morais, que também são solicitados pela defesa, da dívida e dos recursos trabalhistas, o valor total pedido pela defesa é de R$ 51.809,36.

Segundo caso

O segundo caso vem de Nova Serrana. Trata-se de C.P.S.J, que trabalhava como injetor e encarregado de uma fábrica de calçados na cidade. Também levado pela confiança que tinha no ex-patrão, que dava autonomia para que o funcionário realizasse os serviços da empresa, o homem teve o nome utilizado, involuntariamente, para que o ex-patrão passasse cheques. A vítima conversou com o Agora e deu mais detalhes sobre o golpe.

— Ele é de Nova Serrana e mora em Divinópolis. Eu trabalhei muito tempo com ele, ganhei autonomia para fazer o que eu quisesse na empresa, de contratar funcionários até ser encarregado geral por um bom tempo. Enquanto eu tinha confiança, ele pegava cheque sem fundo no meu nome. Hoje eu tenho uma dívida de mais ou menos R$ 7 mil por conta desses cheques, além de estar sendo processado por conta de um aluguel de uma casa aqui em Divinópolis, que ele também colocou meu nome — disse.

Além dos cheques sem fundo, que segundo a defesa o homem teria assinado involuntariamente, achando que eram documentos trabalhistas, a vítima recebeu a notícia de que está sendo processado por uma dívida de aluguel de um imóvel em Divinópolis. O local foi adquirido, segundo o homem, em seu nome pelo ex-patrão. O valor da dívida é de quase R$ 26 mil.

— Os cheques eu descobri enquanto estava na empresa. Ele me prometeu que pagaria toda a dívida no meu nome, mas enrolou por bastante tempo. Mesmo eu saindo da empresa, até hoje não recebi nada. Para piorar a situação, recebi a notícia sobre o processo do aluguel do imóvel recentemente, há cerca de três dias — explicou.

Estelionatário

Transtornado com a situação, o homem já está em contato com advogados para cuidar do caso. Ele comenta que não consegue comprar mais nada por conta da dívida feita pelo ex-patrão. Além disso, afirma que o ex-superior, que julga como estelionatário, tornou-se bastante conhecido por fazer o uso de “laranjas" e outras práticas ilícitas.

— Ele é estelionatário mesmo. Sempre que eu o vejo, ele me fala que vai pagar os cheques, mas até agora nada. Faz promessas, porém meu nome continua sujo na praça. Não consigo comprar mais nada, já que, graças a ele, estou devendo muito dinheiro. Acho que ele nem tem mais essa empresa. Aliás, o estabelecimento nem estava registrado em seu nome. Ele só usa “laranjas” para abrir empresas, é cheio de “rolo” — salientou.

Apesar da dívida, o homem ainda tem esperança de conseguir arrecadar o valor do ex-patrão e limpar seu nome.

— A Justiça no Brasil você sabe como é lenta e demorada. Apesar disso, eu ainda tenho esperança que dê certo, que eu receba. Já procurei um advogado e entraremos com o processo. Queria entrar em contato com ele para resolver isso, porque eu só consigo achá-lo por meio da família. Infelizmente já foi feito, agora é torcer para que dê tudo certo e eu consiga recuperar meu nome — finalizou.

 

 

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