Thanatos entre nós

CREPÚSCULO DA LEI – ANO III – CXXXII

 

THANATOS ENTRE NÓS

Domingos Sávio Calixto

O caos reinava desde sempre, e não se cabia. Era pai, mãe e filho de si mesmo. Sua porção escura era Nix (a noite) até a extensão do Érebo, a treva primitiva e permanente. É assim era o caótico: uma noite eterna, vazia, preenchida no sempre pela escuridão.

Ocorre que Nix, com ajuda de Érebo, cedeu-se em pedaços e dela vieram os gêmeos Thanatos (a morte) e Hypnos (o sono), e ambos preencheram a noite tão fortemente que o vazio recolheu-se em desejo, e o desejo da noite gerou um ovo, e do ovo de Nix nasceu Eros (a pulsão de vida). Das cascas partidas do ovo de Eros vieram Urano (Céu) e Gaia (terra). E veio a luz para a desejante noite.

Assim, de dentro do Caos que tudo separa, Eros é a força é força que une ‒ pois não veio de um pedaço da noite, mas de um desejo dela. Eros é a coesão do Cosmos e dele veio a luz. E, sob o Caos, Thanatos e Eros passaram a se contrapor, como vida e morte.

Então Thanatos é o deus da morte, tenente de Hades (senhor do tártaro, das profundezas). É Thanatos que, com seu toque, leva as almas até Caronte, o barqueiro do Rio Estige, que leva até Hades. Thanatos não produz mortes violentas como Ares (deus da guerra). Ao contrário, o toque de Thanatos é suave, como um ósculo, o beijo da morte.

Thanatos transita na escuridão, mas é representado por uma nuvem prateada por causa de suas entranhas de bronze e seu coração de ferro. Ele chega lentamente, tocando os homens já pelos cabelos (a)tingindo-os com sua nuvem prateada. Mas Thanatos também pode agir de outras formas. Ele está no meio de nós.

A pandemia tem o sopro de Thanatos.

E nela ele caminha, entre multidões, sem máscara para mostrar o sorriso da morte de cujo escárnio avilta e comemora seus cadáveres: “É apenas uma gripezinha”, diz o deus da morte. “Não comprarei vacinas!”, também diz o deus da morte, pairando sobre quase meio milhão de corpos. As mortes fazem crescer o reino do deus da morte.

Thanatos então caminha pelo país, sem máscaras, promovendo aglomeração, provendo a morte e a doença com seu toque suave, com seu sorriso pleno de êxito para Hades. Ele é a própria arma química em pessoa, um bioterrorista que faz questão de levar a doença pelo país afora e adentro, colhendo mais e mais almas para o atarefado Caronte.

Por enquanto, Thanatos está vencendo Eros, pois conta com ajuda de Hypnos, que põe incautos a dormir no sono da alienação. Eros, recém-liberto da sua casca, recolhe forças da terra e do céu para intervir no vale das trevas e da escuridão.

Não há que se menosprezar Eros. Platão até dá a ele uma genealogia bem mais contundente: Eros teria nascido no jardim dos deuses, num banquete em que se comemorava o nascimento de Afrodite. Ao fim da festa, Poros (o Objetivo) e Pênia (a Carência) se uniram e desta união veio sim, Eros. Nessa mitologia Eros é pura energia (enérqueia) e insatisfação, aquela que nasce das necessidades e conduz aos mais altos objetivos. É o plano forjado na carência em busca da plenitude.

Sim, Thanatos está vencendo, mas Eros se fortalece. E lembrando a ária de Turandot (Puccini): “ALL’ALBA VINCERÓ! VINCERÓ, VINCERÓ!” – “Ao amanhecer eu vencerei! Vencerei, vencerei!”.







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