CREPÚSCULO DA LEI - XIII

TERRORISMO DOMÉSTICO

Recentemente o Brasil viu-se envolto em outro caso de terrorismo doméstico – sim, estamos copiando os EUA, que tem tanto a nos ensinar – e a cidade de Suzano- SP foi palco do crime, ocorrido no interior de uma escola pública, onde dez jovens morreram e outros nove restaram feridos. O evento fatídico tomou os noticiários nacionais e internacionais, causando tristeza, comoção e vergonha para o Brasil.

Após o lamentável episódio, um senador de São Paulo, Major Olímpio, disse o seguinte: “Se tivesse um cidadão com arma regular dentro da escola, professor, servente, policial militar trabalhando lá, ele poderia ter minimizado o tamanho de tragédia.”  E ainda continuou: “Mais uma triste tragédia que mostra necessidade da redução da maioridade penal. Bandido não tem idade”. O mencionado senador é autor de projeto de lei que prevê a possibilidade de prender qualquer pessoa a partir de 12 anos, depois de avaliação psicológica.

Então, a depender da fala do tal político, há que se imaginar a cena: uma auxiliar de serviços da escola que, ao perceber a ação dos autores, imediatamente abandonaria sua vassoura, daria um rolamento perfeito para chegar à segunda posição de tiro (ajoelhada), sacaria do coldre oculto um revólver 38 de cano médio, efetuaria disparos sistemáticos para neutralizar os meliantes e, depois de dominá-los com a ajuda da secretária, chamaria a polícia para, em seguida, voltar à sua faxina (!?).

Ora, semanas antes deste atentado ocorreu outro episódio violento destacado nos jornais do país. Desta vez, o fato se deu no Rio de Janeiro, onde uma empresária havia iniciado um enamoramento com certo autor através de site de relacionamentos e o convidou para ir até sua casa. Absurdamente ela foi agredida pelo indivíduo por quase quatro horas e não morreu graças à intervenção de terceiros.

Por conta deste fato, o vereador Carlos Bolsonaro, daquele estado (o Rio de Janeiro passou por intervenção militar e nada daquele aparato bélico indicou que suas armas teriam resolvido alguma coisa), disse pelo Twitter: “Se esta senhora tivesse como se defender, e fosse de sua vontade, uma arma de fogo legal resolveria justamente este absurdo”.

Alguém se lembrou de dizer ao tal vereador que a vítima estava dormindo quando as agressões se iniciaram? Ou talvez fosse melhor ela ter dito ao falso companheiro: “Olha, vou dormir agora, mas tem um revólver debaixo do meu travesseiro, portanto não faça nada comigo, ok?”.

Como algumas pessoas têm fixação por armas. É realmente assustador como creem piamente que nelas (armas) estão as soluções de todos os problemas. Em alguns casos, esta situação requer tratamento urgente, pois envolve uma questão psicossexual grave.

Conforme se observa em Freud (vide o caso de um garotinho chamado Hans), quando as diferenças sexuais vão se mostrando para os meninos, ele acham que o pênis das meninas foi cortado e são tomados por grande medo quando pensam na possibilidade de terem os seus (pênis) também cortados por eventual castigo.

 Disto decorre o complexo da castração, bem como boa parte da estrutura psicanalítica de Freud, fundamentalmente falocêntrica (entenda-se como “falo” o pênis em estado de ereção, símbolo maior do machismo e da supremacia masculina). Faz parte do pensamento falocêntrico o domínio direto do sexo pelo homem, e indireto pela mulher (?). A angústia e o temor de ser castrado na infância faz gerar certa transferência falocêntrica para objetos externos, como as armas de fogo.

Portanto, é compreensível que algumas pessoas resolvam (re)estabelecer um processo de (re)machismo mediante taras com armas de fogo, até mesmo considerando o peso do  declínio da falocentrismo em face de  novas formas de reprodução (assistida, sem pênis) e mesmo em virtude sites de encontros virtuais promovendo novas abordagens sexuais.

Apenas para refletir: em 1995, o então deputado Jair Bolsonaro, que era do PSC-RJ, enquanto fazia panfletagem na Zona Norte do Rio, foi assaltado e dele foi levado uma motocicleta Sahara 350 e uma pistola Glock 380. A vítima pediu ajuda policial e duas viaturas fizeram diligências na favela do Jacarezinho, sem êxito.

Na época, Jair Bolsonaro disse que se espantou com a frieza dos assaltantes e que, mesmo armado, se sentiu indefeso. Talvez como as serventes da escola de Suzano.

 

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