Tempos flutuantes

Leila Rodrigues

Humanos que somos, ancorados em nossas certezas, estamos todos vivendo dias flutuantes. Não se sabe até quando e não se sabe o resultado final. E este contexto, por si, traz, para cada um de nós, alguma consequência. 

Um dia acordamos bem, animados, dispostos e confiantes; noutro acordamos apavorados e agitados, loucos para sair porta afora. E pode ser que amanhã acordaremos apáticos e silenciosos. Nossas reações são surpresas até para nós mesmos. 

Não faltam guerreiros com mensagens de otimismo, assim como também não faltam abutres para potencializar a tragédia. O veredicto é de cada um. Façam suas escolhas e aguardem suas consequências. 

Tempo incerto. Tempo sem chão que nos transforma em seres flutuantes. 

Flutuar é não ter chão. Flutuar é andar com medo de cair. Flutuar, neste momento, é nos equilibrarmos nas nossas poucas convicções. Será? Prefiro acreditar que flutuar é crer no inesperado, é saber que tudo está no lugar certo e do jeito certo, embora pareça tudo errado. Flutuar é aceitar que o vento nos leve, para onde ele achar melhor. Com a certeza de que o vento sabe o que faz. Flutuar é acreditar na silenciosa e invisível força do ar! 

Flutuar é acreditar no amanhã, mesmo sem saber quantos dias faltam para esse amanhã chegar. Difícil, não é? Difícil especialmente para quem sempre ancorou suas certezas nos números. Planilhas e estratégias bem traçadas sempre foram e serão um excelente norte. Desde que, junto com elas, consideremos o humano que executa e a natureza que movimenta. No meio do caminho bem traçado dos planejamentos existem as forças invisíveis que descarrilham as engrenagens. Somos todos reféns desta força. E se até ontem tínhamos a certeza de dominarmos o mundo, experimentamos, neste momento, a real e verdadeira impotência dos humanos. 

Em tempos flutuantes, o jogo é outro. Não existem favoritos, não existem campeonatos. E quanto mais usamos o contexto para resolver nossas rixas antigas, mas o contexto se aproveita da nossa distração. 

Não é sobre ir ou ficar, nem tampouco sobre lados opostos que disputam o mesmo lugar. É preciso sobreviver hoje para garantir o amanhã.  Seja no mesmo barco ou em barcos separados, a tempestade está aí! 

Se deixe flutuar! Apenas deixe. E se cuide!

 

leila.palavras@gmail.com

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