Temporal vira prejuízo para camelôs de Divinópolis

Maria Tereza Oliveira 

Os camelôs que trabalham no quarteirão fechado da rua São Paulo, no Centro, estão entre as maiores vítimas do temporal de segunda, 15, que gerou inúmeros transtornos na cidade. Com prejuízo material e traumatizados pelo ocorrido, um dia após a tempestade os comerciantes tentaram calcular os prejuízos e seguir em frente.

Quem visita o local nota não apenas os estragos físicos, como também as expressões abatidas e cansadas dos trabalhadores. Muitos camelôs tentaram salvar o máximo de mercadorias e, assim, diminuir o prejuízo.

José de Carvalho Rocha trabalha no ponto de comércio popular há dez anos. Dono de uma barraca de roupas, afirmou que foi um dos que mais sofreram com a ação da chuva, pois a barraca dele fica em local bastante atingido.

— A tempestade arrancou tudo. A água veio, invadiu as barracas e a enxurrada alastrou-se em meio às mercadorias. Muita gente perdeu rádio, relógio, tudo — relatou.

O comerciante afirma estar traumatizado e diz que só quem estava no local tem ideia de como foi.

— A chuva de granizo batia na gente. Tudo estava alagado, enquanto a gente tentava salvar a mercadoria. Foi desesperador — lembrou.

Ele acredita que o prejuízo foi grande, embora ainda não tenha calculado o quanto. Disse que doou parte das roupas, porque apesar de não estarem em bom estado para vender, dava para lavar e aproveitar.

— Foi uma coisa que nunca me aconteceu. Não dormi, porque fiquei preocupado com tudo. É um sofrimento geral — revelou.

Outra vítima do temporal é a camelô Milene dos Santos, que trabalha no local há 16 anos. Ela contou que está desolada com a situação.

— O nosso ganha-pão vem daqui. É daqui que tiramos nosso sustento. Ver as coisas se perderem é muito triste — destaca.

O prejuízo da comerciante com mercadorias é de aproximadamente R$ 3 mil, fora os custos que ela terá para reconstruir o teto do local.

— Nenhum rádio está funcionando. E eu perdi só rádio caro. Até deixei alguns secando para ver se funcionava, mas foi em vão — realçou.

A camelô contou que mesmo com a barraca fechada, a tempestade estava molhando as mercadorias. Ela disse o que vai fazer a partir de agora para se estabilizar.

— Vou começar de novo, mesmo não tendo dinheiro e condições. Vamos ver o que o prefeito pode fazer, porque nós não conseguimos. Estamos aqui, somos trabalhadores e não estamos de brincadeira. A Prefeitura e Defensoria Pública precisam dar atenção para a gente — pediu.

Tragédia anunciada 

Fátima Eliane está há dez anos trabalhando no camelódromo. Segundo ela, os camelôs estão abandonados pelos órgãos públicos.

— Fui jogada aqui neste lugar esquisito. Disseram que seria provisoriamente, mas já estamos há dez anos aqui, entregues a nada — reclamou.

Para ela, o que aconteceu na segunda foi uma tragédia anunciada.

— Aqui não tem fiscalização nas ruas. Falta organização e um monte de outras coisas. Mas, o que não faltou foi aviso. A gente pediu, foi na Câmara, atrás de prefeito, participamos de reuniões e ninguém nos escuta em nada. Muitos aqui não têm condições de pagar mil reais para fazer um teto porque têm família, estão doentes ou por outros motivos — lamentou.

Ela afirmou que todos do camelódromo precisam da ajuda da população para se reerguerem.

— Precisamos trabalhar e corremos risco de morrer. Aqui tem fios desencapados e eu aposto que um dia isso daqui vai pegar fogo. 

Eco na Câmara 

Na reunião de ontem da Câmara, vários vereadores lamentaram o ocorrido. Dentre os que se manifestaram, Janete Aparecida (PSD) e Sargento Elton (Patriota) foram os mais incisivos.

Janete sugeriu que o poder público ajude na reconstrução do camelódromo e pediu que a população não jogue lixo em locais inapropriados, para evitar alagamentos.

— Ninguém é culpado pela chuva. É um fenômeno da natureza. Mas, temos de ajudar os trabalhadores do camelódromo. Além de ajudar na economia, eles são patrimônio cultural da cidade — destacou.

Já Sargento Elton afirmou que os incidentes causados pela chuva são resultados da falta de planejamento e organização.

— Temos de ser sensíveis para ver o que pode ser feito para reparar os danos ao camelódromo, que deixaram os trabalhadores em situação complicada. Vamos fazer um movimento popular para ajudar os camelôs — sugeriu.

Governo

Procurada pelo Agora, a Prefeitura se limitou a dizer que avalia a situação.

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