Temos uma assistência ao parto extremamente machista, diz médica

 

 

Ana Laura Corrêa 

A médica da família e comunidade e professora da UFMG, Júlia Rocha, esteve em Divinópolis na última sexta-feira, 20, para participar do 1º Simpósio Regional de Assistência ao parto. Em entrevista ao Agora, Júlia, que também trabalha como doula, falou sobre a atual situação da assistência ao parto.

— Temos uma assistência ao parto extremamente machista, que subjuga a mulher e tira a sua autonomia para poder fazer aquilo que a medicina acha certo. Muitas vezes, isso é danoso à mulher. A medicina obstétrica é um campo da ciência importantíssimo. As ações de um obstetra, quando bem feitas e no momento adequado, podem salvar vidas e é o que acontece muitas vezes. Mas, quando a gente coloca a figura do médico de uma forma hierarquizada, em que ele define aquilo que é bom para a mulher e ela apenas aceita, tendo que se submeter a tudo mesmo sem o conhecimento das consequências, passa-se a ter uma relação muitas vezes danosa para a mulher. E essa não é a relação médico-paciente que a gente sonha e aprende na faculdade de medicina. Queremos uma relação harmoniosa, na qual as mulheres tenham o direito de falar com a certeza de que vão ser ouvidas em seus anseios e suas vontades — disse.

Segundo a médica, no entanto, a vontade da mulher não é necessariamente soberana.

— É preciso discutir e mostrar para a mulher quais são as evidências para que a gente consiga negociar com a paciente um terreno comum, que não seja invasivo e doloroso para ela, mas que não a coloque em risco dentro desse processo de cuidado — explicou.

Doula 

A médica considera que ainda existe um entendimento muito ruim do que é a figura da doula.

— A atividade da doula é muito respaldada pelas melhores evidências científicas, mas ainda hoje percebemos que muitos hospitais negam à mulher esse direito. Inclusive, algumas pessoas desinformadas atentam contra a integridade da mulher quando falam sobre a assistência humanizada de forma equivocada, dizendo para as mulheres deixarem a doula fazer o parto. No entanto, não é papel da doula fazer o parto. Aliás, não é papel de ninguém, a não ser do neném e da mulher. Nós, como profissionais de saúde, estamos ali para assisti-la e fornecer a ajuda necessária. Quando se passa do necessário, começa-se a causar iatrogenias [qualquer alteração patológica constatada num paciente decorrente de erro de conduta médica]. A doula tem um papel de apoio, de suporte emocional, físico, para que a mulher se capacite emocionalmente e se torne potente naquele momento para poder trazer o seu filho ao mundo. A doula quase nunca é médica, o único pré-requisito é que ela seja uma mulher — afirmou.

Formação

 De acordo com Júlia, as más práticas de médicos durante a assistência ao parto podem se dar devido a uma formação inadequada na universidade.

— Eu quero crer que todos os meus colegas, ou que a maior parte deles, têm boa vontade e boas intenções na assistência. No entanto, mesmo os que têm boa vontade e boas intenções podem ter tido uma formação inadequada. Hoje é preciso que haja uma deputada estadual propondo uma lei que proíba qualquer procedimento pedagógico durante o parto. Vi muitas vezes na minha faculdade, por exemplo, uma parturiente ser tocada por duas ou três pessoas em sequência, dentro de uma contração. São toques extremamente dolorosos com a desculpa de que aquilo era importante para que o aluno aprendesse. E a gente sabe que as coisas não precisam ser assim. Podemos aprender num ambiente menos hostil à mulher, não é preciso violentá-la para aprender a tocar um colo do útero. Quando a gente propõe essa discussão, no entanto, alguns professores questionam como o aluno vai aprender. É uma questão ética tão complicada. Esse professor está querendo que o aluno aprenda que é plausível tocar uma mulher e causar dor a ela simplesmente para saber como é esse colo? Será que não existe outra maneira? É necessário voltar a uma prática que acontecia 50 anos atrás? — questiona.

 

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