Tchau, queridos!

Sonia Terra

A última vez que entrei na Redação do Agora, onde dediquei 37 anos da minha vida, foi em 24 de janeiro, para o “tête-à-tête” com o editor Flávio Roberto Pinto, pois o melhor investimento continua sendo a verdade e a transparência.

Há tempos, venho me sentindo desconfortável no impiedoso mercado do jornalismo, com seus contornos de guerra e táticas desleais de vale-tudo. Naquele dia, saí com a sensação do dever cumprido e nem um pouco desamparada. Em todas as fases da vida, tive rotas de fuga; desta vez, minha mãe me esperava no carro e os cuidados posteriores com ela me absorveram total e completamente.

Tentei sair ilesa da guerra de egos do mundo onde poucos conseguem sobreviver com integridade. Não tive dúvidas e, num passe de mágica, me despi do carinho pela função que ocupou boa parte da minha vida. Saí dali, arrependida pela demora na decisão – deveria tê-lo feito no fim do ano passado –, mas prevaleceram o “Manual da Prudência” e o bom senso. É cada vez mais nítida a percepção de como as pessoas se indispõem ao conhecimento consistente, que exige demora. É mais confortável ler resumos, resenhas, manchetes e conteúdo rápido, ou pago. Sou de um tempo em que havia menos grupos de inteligência e mais sofisticação no debate. A formação adquirida nos clássicos abre o horizonte para ramagens da complexidade humana e os livros ajudam o autoconhecimento, por isso me sinto livre e forte.   

Por seu lado, o Agora, estrangulado por governos corruptos, que só pensam em amordaçar a imprensa, e às turras para sobreviver de anunciantes e assinantes, é comandado por um grupo que prioriza, um pouco mais que gostaria, o entretenimento e, mesmo que continuasse no jogo, nunca abriria mão de quem sou para me tornar o que os outros desejam que eu seja. Estamos cada vez mais deselegantes, sem cerimônia, não posso me submeter à guerra de egos, disputa territorial onde o poder é mais importante que a preservação da dignidade e memória. Mudamos eu e o público consumidor de notícias e reportagens, que não é mais um leitor passivo a compreender o mundo em parágrafos curtos e sem adjetivos. Ele quer participar, reconhecer algo próximo de sua própria experiência e, neste campo, continuo contribuindo com minha experiência. Sempre disposta a me engajar e inspirar, mas em novo formato. Entusiasmada, apaixonada e interessada em ir além, a flertar com o mundo e encontrar o melhor meio para cada mensagem – tudo é possível para o live journalism – fluido, não o que tradicionalmente chamamos de jornalismo, mas ajuda a entender o mundo ao nosso redor, de acordo com as novas tecnologias.  

É na percepção das escolhas que fazemos diariamente que identificamos se estamos construindo o céu ou o inferno. Não saberia seguir dissimulando e a vida só é suportável quando trazemos para nossa rotina a realidade que nos ajuda a sorver o cálice. Minha formação moral e herança familiar me obrigam a esta honestidade intelectual com você, leitor, que me acompanha há décadas. Por isso, agradeço aos colegas de jornada, a quem leu, comentou, compartilhou e desabafou comigo e principalmente às “fontes”.

O mundo somos nós, e desta história saio com a consciência leve de que, no impresso, deixei um legado que meus filhos, os biológicos e os “adotados”, as dezenas de estagiários e amigos que passaram pelo meu caminho se orgulham. Aprendi muito com eles e cada um deixou mais ainda de si. Sou grata demais a todos!  

Aos dirigentes do Agora, desejo sorte e que continuem informando, sem medo das ameaças tarjas brancas; que mantenham a população a par das burlas, trapaças, dos jeitinhos travestidos de “benefícios”, “ajudas moradia” a excelências e suas obscenas imunidades e impunidades. São excrescências da vida local e nacional que precisam ser banidas. Não percamos o foco, pois o Brasil é muito maior do que isso a que estamos assistindo.

Da minha trincheira, continuo atenta. Vêm eleições por aí, com a possibilidade ímpar de discutir e mudar o processo e o padrão moral estabelecido no Executivo, Legislativo e Judiciário. Não podemos continuar em um país dominado por organizações criminosas, a viver na mão de bandidos, sermos saqueados, sem cidadania, sem nada, sem respeito; por isso, nossa única arma é o voto.

Valeu muito, demais! Tchau, queridos, e continuem comigo no www.sonia.terrra.com.

 

 

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