Socorro! Querem me petrificar

Acordo mais um dia com a fragrância de bebê no meu quarto e nas minhas roupas de cama. Agradeço a Deus pela presença do meu pedaço perpetuado. Singelo, puro e inocente como costumam ser os anjos.

Num súbito levanto de minha cama, feliz por estar viva e principalmente disposta, uma vez que morta estive por tanto tempo no silêncio do meu leito. Medicamentos exacerbados ou depressão? Não sei, mas isso não importa. Ambos possuem os sepulcros equivalentes.

Vidrada na água a borbulhar, as minhas ideias entram em uma simbiose, já não penso no chá que estou a fazer. Almejo realizar todas as atividades que não fiz quando estive petrificada. Trabalhos, livros, aulas, orações, atividades físicas. O tempo foi favorável. Realizei mais do que imaginava, assim percebi o quanto o tempo é valioso.

Dormir exageradamente é perder tempo. Ao desprezar esse, estamos jogando fora a vida em si. Um tanto quanto banal nas bocas populares, mas dotado de sentido, penso na eternidade da morte para este mundo, única certeza pela qual todos estão sujeitos a serem abraçados a qualquer momento. Dotada de pavor e ao mesmo tempo alegria por ter acordado a tempo, sinto-me renovada. Há muito não sentia o sabor da existência.

Após um dia de estudos, calço meu tênis a fim de realizar minha corrida diária. Sucesso! Volto para casa, tomo meu banho e rapidamente um leite. Meu pai se prontifica a me levar ao grupo de orações. Nada melhor para encerrar meu dia. Adentro meu lar com um coração puro e o perene sentimento de renovação.

Acabo de passar pela porta e sou surpreendida por meu pai, que logo introduz a chama da tristeza que só o passado mal passado é capaz de gerar. A notícia é de que meus medicamentos serão aumentados. A confusão toma conta de minha mente. Estava tudo tão bem.

A surpresa é que meus pais haviam ligado para meu médico e contado da minha renovação. Ao olhar de pais receosos por terem resgatado a filha entre a labareda do vulcão e o abismo, aquilo consistia no início de uma crise ou mania.

O médico não obteve a oportunidade de recorrer ao meu estado e aos meus pensamentos. A palavra final seria dos anciãos. Porém, dotada de opiniões próprias, me recuso a aceitar tal atitude de meus pais. Minha disposição não será revertida em medicação. Socorro! Querem voltar a me petrificar! Espero transformar as pedras em meu castelo. Cheio de nuances, mas castelo.

laurasoaresferreira@hotmail.com

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