Sociedade do espetáculo

Sociedade do espetáculo 

Editorial

A partir de 2015, quando houve o “boom” das redes sociais, a sociedade se transformou na “sociedade do espetáculo”. Como disse muito bem Umberto Eco, "as redes sociais deram voz a um bando de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Sim, essa é a mais pura e cruel realidade do atual momento, e parece estar muito longe de acabar. Vivemos na sociedade do espetáculo que não respeita, não tem responsabilidade, não mede consequências e faz de tudo, mas absolutamente tudo para aparecer, deixando de lado todo e qualquer dano coletivo que o seu ato pode causar. 

Divinópolis experimenta um pouco disso diariamente. Em busca dos seus 15 minutos de fama, os políticos locais agem como se não houvesse amanhã, usam as redes sociais para espalhar mentiras, provocar medo e prestar um verdadeiro desserviço à sociedade. Sem qualquer esboço de culpa ou arrependimento, eles apenas seguem com seus vídeos, sem pensar duas vezes na responsabilidade que lhes cabe. Pensam em apenas um objetivo: conseguir e permanecer no poder; ou voltar ou entrar, para quem está de fora. O silêncio, o bom senso, a noção já não pertencem mais à sociedade do espetáculo. A todo tempo, toda hora, todos têm uma opinião sobre tudo e se escondem naquela conhecida frase: “mas essa é a minha opinião”; esquecendo-se que fatos – muitas vezes científicos – se sobrepõem a qualquer opinião. 

O professor da Universidade da Califórnia e assessor de tecnologia da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos Martin Hilbert afirmou que a sociedade não estava preparada para a era digital. Esse é um fato, e contra ele não há argumentos. A prova disso foi o que Divinópolis passou nos últimos dois dias, quando mais uma vez virou chacota nacional por causa de atitudes irresponsáveis, trazidas pela “sociedade do espetáculo”. Segundo o professor, vivemos em um mundo no qual políticos podem usar a tecnologia para mudar mentes, operadoras de telefonia celular podem prever nossa localização e algoritmos das redes sociais conseguem decifrar nossa personalidade melhor do que nossos parceiros, e nós ainda não conseguimos mensurar o quanto isso nos afeta. Definitivamente não estávamos preparados mesmo.

Além de darmos voz a imbecis, que causam danos coletivos – alguns deles irreparáveis –, acreditamos que opinião vale mais do que um fato. Ao nos transformarmos na “sociedade do espetáculo”, nos esquecemos dos limites e de valores primordiais para se viver em coletividade: o respeito e a responsabilidade. Quanto vale um show? Uma vida que acredita em uma notícia falsa? Quanto vale expor uma pessoa na internet? Distribuir ignorâncias nas redes sociais? Talvez essas sejam perguntas que todos devem se fazer neste momento. Afinal, onde essa “sociedade do espetáculo” vai nos levar? Talvez, o momento nos convide para o silêncio, para avaliações internas, pois parar e respirar às vezes é preciso.

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