Sobre os palhaços

Domingos Sávio Calixto

Nietzsche, em um dos seus fragmentos de fala (1887), dizia que não existem fatos, mas interpretações. 

É um bom começo de debate sobre o trágico e o cômico, naquilo que envolve interpretações sobre um mesmo episódio e talvez seja por isso que a figura do palhaço transite com extremada facilidade entre um e outro. O palhaço é multifacetário e pode significar o cômico e o lúdico, mas também pode significar o trágico, até o horror.

Como picadeiro, é desnecessário ressaltar o atual momento pelo qual passa a humanidade, bem como o grande número de palhaços que insistem em confundir o trágico com o cômico, sem o cuidado sequer de substituir  o clássico nariz vermelho por máscaras, mas por gravatas e gracejos em via pública, no meio do povo, provocando aglomerações e ajuntamentos de risco.

É evidente que (esse) palhaço assim o faz porque quer transformar em comédia sua obrigação de dar assistência às pessoas em situações trágicas, ou seja, o palhaço não quer pagar nem cumprir sua obrigação de chefe de governo junto aos necessitados, e faz do trágico uma piada alienante e perigosa ao exigir o trabalho da classe afetada.

É um palhaço que não quer pagar porque não tem compromisso com o estado social, mas tem compromisso com a economia capitalista, com os bancos e com a bolsa, tem compromisso com as corporações, tem compromisso com transações nada engraçadas envolvendo títulos do governo e o capitalismo financeiro, outro vírus genocida. 

Tem mais palhaços e mais palhaçadas trágicas. 

O sistema penitenciário é um crime permanente do estado brasileiro, isso é notório. Também  é notório que a precariedade que o assola causa a alegria de muitos que se dizem cidadãos de bem – tipo aqueles que, quando não estão envolvidos em falcatruas, estão agredindo suas companheiras em noticiários bem discretos. 

Ocorre ser evidente que a população carcerária brasileira – que só perde para Israel, EUA e China – é alvo fácil para a Covid 19. 

Daí a Portaria Interministerial nº 7, de 18 DE março deste ano, assinada pelo ministério da justiça e pelo ministério da saúde (em minúsculas), editada com  o propósito de trazer medidas de contenção ao vírus em tais situações – lembrando que políticos e empresários já foram agraciados com a prisão domiciliar.

Ora, para os presos comuns, aqueles que “não são cidadãos de bem e que colocam em risco a sociedade” (…?), a tal Portaria estabelece no seu artigo terceiro “...na hipótese de identificação de casos suspeitos ou confirmados entre os custodiados, os profissionais de saúde que atuam nos estabelecimentos prisionais deverão seguir as orientações previstas nesta Portaria e em atos do Ministério da Saúde, inclusive quanto ao uso de máscara e isolamento individual”. O Estado vai fornecer máscaras para os presos?

E, pior ainda, o parágrafo primeiro do mesmo artigo, diz o seguinte: “...Caso não seja possível o isolamento em cela individual dos casos suspeitos ou confirmados, recomenda-se à Administração Penitenciária adotar o isolamento por corte e o uso de cortinas ou marcações no chão para a delimitação de distância mínima de dois metros entre os custodiados (...)”.

Sim, é isso mesmo (publicado no DOU em 18 de março de 2020), a orientação é colocar cortinas nas celas ou proceder marcação no chão com tintas.

É claro que quem escreveu isso não tem a mínima noção do que seja uma cela de presos no Brasil, não tem a mínima noção do que seja política criminal, nem sabe o que é justiça ou sequer tenha noção mínima de humanidade.

Trata-se, evidentemente, de uma pessoa habituada a agir com parcialidade em processos, em fraudar procedimentos e provas para perseguir inimigos, bem como é uma pessoa treinada para agir de acordo com as ordens de outro, nacional ou estrangeiro.

Mas esta não é a questão, pois trata-se de mais um palhaço . A questão é como isso é interpretado, se trágico ou cômico, ou seja, a forma como se interpreta tais fatos e a consequente projeção reveladora do espírito coletivo que predomina em uma sociedade.

Se as pessoas interpretam como cômico, significa tristemente desamor à vida e ao outro. 

Se interpretam como trágico, então ainda há esperança.

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