Sobre o medo do inferno e a arte de bem morrer

Ana Laura Corrêa

A morte pode já não amedrontar tanto hoje em dia, mas nem sempre foi assim. Frei Jacir de Freitas Faria, no seu doutorado em teologia, fez um estudo sobre a devoção apócrifa à Dormição de Maria e sua relação com o imaginário religioso medieval do inferno, do purgatório e sua relação com a morte, do culto aos mortos, da história da criação de cemitérios e das irmandades dedicadas ao cuidado dos mortos.

Todas essas pesquisas foram para a compreensão de um tema mais amplo: a relação do imaginário religioso – especialmente aquele ligado à morte – europeu, brasileiro com a religião dos nagôs de matriz africana. Ele verificou que havia, sim, algo em comum entre esses diferentes modos de ver o mundo e na maneira de conceber a vida terrestre e após a morte.  O estudo resultou em um livro que será lançado com uma conferência amanhã em Divinópolis, às 19h30, no Centro Franciscano de Formação e Cultura, situado à rua Minas Gerais, 582, Centro.

— Há um estudo sobre o medo nas idades média e moderna. Viver naquela época era muito triste, o medo assolava a vida das pessoas. Destaco as atitudes do ser humano daquela época diante da morte, do medo dela e de tantos outros medos que se tornaram correlatos, como o do inferno, de satanás, do purgatório, juízo final etc., formando um imaginário religioso que chegou até nós. A igreja explicitou esses medos e os fez presentes na vida dos fiéis. Mas medo e esperança estão entrelaçados. Paradoxalmente, o medo cria esperança. A salvação da alma foi a esperança, a expectativa que a igreja criou nos fiéis a partir do medo da morte e do inferno e do desejo de chegar ao paraíso — relata o frei.

História

Tudo começou na idade média quando, para incutir o medo da morte, pregadores utilizavam crânios em seus sermões. Medo da morte, do julgamento divino e danação eterna no inferno formavam uma trilogia perfeita nessa época. Já na era das luzes, o medo da morte entrou em descrença. O despertar da razão colocou fim aos monstros do medo e do pavor da morte.

— Hoje em dia o inferno também está em desuso, mas continua vivo no imaginário e na pregação de alguns que insistem na volta dessa antiga pedagogia do medo para salvar almas — relata frei Jacir.

Diante do medo da morte e do inferno, aparece Maria dos evangelhos apócrifos, retomada com a força de advogada, como se verifica na reza da Salve Rainha, oração dessa época.

Na vinda para o Brasil, os portugueses trouxeram essa sua religiosidade. Ela incluía, por exemplo, diante do temor da morte, a devoção à Dormição de Maria e o incentivo à criação de irmandades da Boa Morte. Por aqui, os povos africanos também haviam trazido o imaginário de religiões de matriz africana. Então, a devoção portuguesa foi ressignificada por mulheres negras na Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, na cidade de Cachoeira, na Bahia, o que resultou no sincretismo luso-afro-brasileiro.

— A irmandade é um sinal de aceitação da fé lusitana, mas também de resistência, de celebração de sua fé particular e luta para a sobrevivência cultural e religiosa. Elas celebravam a devoção à Dormição de Maria como se fosse um ritual africano de passagem do mundo dos vivos para o encontro com os ancestrais — conta frei Jacir.

Obra

Mais detalhes sobre os estudos de frei Jacir estão no livro “O medo do Inferno e a Arte de bem morrer: da devoção apócrifa da Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte”, publicado pela editora Vozes.

— Quando estava fazendo a pesquisa, a morte me visitou. A minha mãe fez a sua Páscoa definitiva para junto de Deus. Foi um momento muito difícil para mim. Perder a mãe é como cortar o cordão umbilical para sempre. Eu estava escrevendo sobre a morte e vivenciando-a, não como os medievais, é claro. No meu luto, as pessoas exigiam de mim a postura de padre, e eu dizia, aqui sou filho. O olhar derradeiro na capela mortuária, no cemitério, foi a experiência do distanciar-se para sempre de quem eu tanto amei e me amou. Naqueles dias de luto, o entardecer, o encontro das energias, me fazia sofrer ainda mais. Até que, numa daquelas tardes, resolvi fechar o meu luto escrevendo. Uma meia dúzia de páginas deste novo livro, da 107 a 113, registraram essa minha experiência de compreender que a morte, por mais dolorosa que seja, não é morte, mas a vida que devolvemos a Deus como gratidão por nos ter dado a existência. Naquele dia, devolvi minha mãe para Deus. Guardo a lembrança dela como vida que permanece em mim até o dia que em eu também vou experimentar a arte de bem morrer, espero, sem medo e cheio de esperança, de ver Deus face a face. Espero que as minhas palavras existenciais também possam ajudar aqueles que já passaram pela morte de um ente querido — destaca o frei.      

O autor nasceu em Pitangui, mas passou a infância e adolescência em Divinópolis, e tem familiares na cidade. Atualmente, frei Jacir é reitor e professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomas de Aquino, em Belo Horizonte.  Já aqui na cidade do Divino, ele ministra cursos e assessora, anualmente, um Retiro Bíblico Corporal de purificação, que chegará à sua 30ª edição entre os dias 2 a 8 de janeiro de 2020 e terá como o tema a arte de bem viver e bem morrer. Ele já lançou outras 21 obras, sendo 12 delas em coautoria, e assumiu, em 2014, a cadeira número 20 da Academia Divinopolitana de Letras (ADL), ocupada, no passado, por frei Odulfo Van der Vat.

— Por essa e outras razões, eu não poderia também de deixar de lançar o meu novo livro em Divinópolis — diz frei Jacir.

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