Sobre o ato de se amar

Leila Rodrigues

Estamos na era do “auto”. Fala-se muito em autoestima, auto-observação, auto-higiene, autoconhecimento e autoamor.  No fundo, todos esses “auto" querem nos deixar o mesmo recado: cuide-se! Cuide você mesmo, aja, tenha uma boa relação com você. Isso pode parecer poético demais para quem passa a maior parte do tempo cuidando de “outros”. Mas, se pararmos para pensar, não se pode terceirizar o nosso relacionamento conosco. Ele é e sempre será o mais importante de todos os relacionamentos que vivemos. Uma pessoa mal resolvida consigo mesma não consegue se relacionar com mais ninguém.

Então, sem poesia e com realidade, é preciso se amar! Ame-se! Ame-se do jeito que você é! Sem máscaras, sem retoque, sem Photoshop. Ame a pessoa que você sempre foi. Ame-se na perda, na derrota, na feiura, na doença, na pobreza, nos dias comuns que não têm nenhum glamour. Esse é o desafio do autoamor! Amar-se quando ninguém mais te amar!

Ame-se depois de ter levado um fora, depois de ter perdido o emprego, depois de ter levado um tombo da vida. Ame-se depois do porre, depois da dívida, depois da separação, porque é nessas horas que todos os falsos amores se vão e você vai sobrar apenas com você mesmo. Ame-se com dor de cabeça e compreenda o fato de que você é um no meio de muitos. Ame-se sabendo ser um grão de areia. Um único grão de areia no meio da areia toda!

Ame suas tentativas, ame suas iniciativas e todas as suas formas de lutar. Ame o que você conquistou, mas não faça disso o único motivo para se amar. Junte seu lado sombra com seu lado luz e ame-os com a mesma intensidade. Pois que somos a soma dos nossos lados e não há nada mais saudável que isso!

Autoamor não é vaidade. Vaidade é preocupação com o externo, com o que os outros vão pensar. Autoamor é cuidado, preocupação com o que se é de fato. Cuidado com o corpo, cuidado com a alma, cuidado consigo. Cuidado com o templo que carregamos conosco e chamamos de corpo. É confortar-se ao vestir, ao despir, ao ingerir, ao permitir o que deve ou não fazer parte de nós.

Autoamor não é egoísmo, é fortalecimento! É saber-se filho do universo, portanto herdeiro e lutador. Autoamor é a intimidade consigo. É se colocar frente a frente com a única pessoa na qual você pode ter alguma expectativa, você mesmo!

Autoamor é cuidar deste solitário e secreto relacionamento que só você sabe o que tem de verdadeiro nele. Mas, sem que você perceba, todos à sua volta enxergam claramente. Autoamor é o afeto que você se dá! Consciente que, só depois dele, outros afetos virão.

leila@leilarodrigues.com.br

Comentários
×