Será que vai mesmo?

As redes sociais foram tomadas ontem, logo pela manhã, pela notícia de que os engenheiros que atestaram a segurança da barragem do Feijão, em Brumadinho, haviam sido presos. Algo inédito, pois, no rompimento da barragem do Fundão, em Bento Gonçalves, as famílias sequer foram indenizadas. Todas vivem de aluguel em Mariana e aguardam, além das indenizações, a construção de uma escola na comunidade.

Ao que tudo indica, desta vez vai ser diferente, afinal, os engenheiros foram presos. Mas será que vai mesmo? Será que prenderam as pessoas certas? Será que desta vez realmente vai ter punição? Um dos problemas primários da população brasileira é se contentar com pouco. É se iludir com muito pouco. É aceitar migalhas dos grandes e se manter com aquele pensamento pequeno, limitado.

Movidos pela compaixão do momento, milhares de brasileiros se uniram e doaram tanta coisa, mas tanta coisa, que os donativos atenderão Brumadinho por um bom tempo. A ação foi linda, de encher os olhos e o coração. Atos como estes nos dão orgulho de ser brasileiros. Mas a responsabilidade de suprir as vítimas, os familiares destas e os moradores da cidade, financeiramente, era de quem? Da Vale!

Diante da catástrofe e da mobilização dos brasileiros em doar e em se voluntariar, a Vale “doou” R$ 100 mil para cada família. Sim! Isso mesmo, ela “doou”. E alguns mais uma vez bateram palmas para a empresa, porque os moradores de Bento Rodrigues sequer receberam isso. Pois é, mas a Vale não fez mais que a obrigação e os brasileiros, acostumados com miséria, batem palma. Acreditam piamente que, desta vez, será diferente.

O mais triste e real disso tudo é que, possivelmente, não vai ser diferente — a não ser que haja uma pressão popular muito forte e constante. O mais triste disso tudo é pensar que, daqui três anos, assim como em Bento Rodrigues, talvez a população de Brumadinho ainda esteja em busca de justiça. Se os engenheiros permanecerão presos? Com certeza, não! Se eles foram presos apenas para “prestar contas à sociedade”? Talvez, sim! Se o povo brasileiro vai aprender com esta tragédia? Talvez, sim!

A única certeza que se tem neste momento é que centenas de famílias estão condenadas a viver mutiladas pelo resto de suas vidas. E o dinheiro? O dinheiro pouco importa. Nada fará o tempo voltar e as suas famílias terem de volta aqueles que perderam a vida.

Prisões podem ser um alento? Talvez, sim! Mas nada fará com que o dia 25 de janeiro seja apenas uma sexta comum. Nada mais fará com que aquela cidade seja a mesma, ou as vidas dos familiares das vítimas sejam as mesmas. Aqui no Brasil, infelizmente, o crime compensa. E a impunidade está sempre à espreita. Resta torcer para que, desta vez, seja diferente.

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