Sentimos muito

Sentimos muito. Aliás, não há quem não sinta muito por Brumadinho. Mas não sentimos só pelas vítimas, pelas famílias ou pela cidade. Sentimos muito pelo povo brasileiro. Sentimos muito por uma cidade ter sido devastada por causa da ambição do homem. Por causa desses homens que “trocam vidas por diamantes”. Sentimos muito por famílias terem sido mutiladas. Mutiladas por homens que só querem mais e mais. Sentimos muito por esta Minas Gerais. Esta “Minas das Gerais” que quem conhece não esquece jamais. Sentimos muito por estas “Minas” não terem tido pessoas capazes de cuidar delas como mereciam.

Sentimos por tudo. Sentimos por você, que seguia sua vida normalmente nesta sexta-feira, 25 de janeiro de 2019. Sentimos por você que levantou e achou que teria mais um dia de trabalho comum. Mais um dia de vida comum, mas foi devastado por toda a eternidade. Sentimos muito por você que foi condenado pela Vale, pela ganância dos outros, a viver o resto de sua vida com esta dor, com este buraco. Sentimos muito, assim como sentimos por Mariana, Itabirito, Miraí, Cataguases, Macacos, Rio Acima e agora por Brumadinho, que tiveram suas histórias manchadas pela lama. Sentimos muito pelo fato de a história de Minas Gerais estar manchada pela sede de dinheiro.

Sentimos muito por tudo. Por termos governantes que só trabalham por interesse próprio. Que não cumprem o papel de trabalhar pelo povo, que brincam de governar, que brincam com vidas, só pelo gostinho de estarem no poder. Sentimos por não termos representantes, leis que punem, fiscalizadores que fiscalizam de verdade e cobram de verdade. Sentimos pela impunidade. Sentimos por, no Brasil, o crime compensar. Sentimos muito, mas muito mesmo. E não há palavras, escritas neste papel, que sejam capazes de expressar o quanto sentimos por tudo o que está acontecendo no Brasil. Apenas sentimos e tentamos todos os dias ser a mudança que queremos ver no mundo, apenas isso.

Queríamos escrever hoje mais um editorial sobre o cotidiano de Divinópolis, mas não dá. Não dá para fechar os olhos para tamanho desastre. Desastre ambiental, sim! Mas, principalmente, desastre humano. Falhamos. Falhamos como seres humanos. Falhamos na “humanologia”. Centenas de vidas foram perdidas e nós simplesmente falhamos. E continuamos a falhar. Continuamos a querer mais e mais. Mas em nome de quê? Em nome de quem? Sentimos muito por estarmos escrevendo estas linhas hoje. Sentimos muito por não trazermos notícias boas. Sentimos muito por não estamparmos amor em nossa capa hoje. Sentimos muito por trazer hoje o retrato da ganância, da devastação, da mutilação, da irresponsabilidade, da incapacidade, da impunidade e do desespero.

Sentimos muito por uma vida valer R$ 49 mil. Sentimos muito por hoje, centenas de pessoas terem virado apenas estatísticas, por famílias terem virado números e pelo fato de a vida continuar — em alguns dias — como se nada tivesse acontecido. E por nada ser tirado como lição. Por tudo continuar impune; por empresários e políticos continuarem com suas contas cheias de dinheiro enquanto famílias têm de seguir suas vidas mutiladas.

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