Sem ter o que comemorar, Divinópolis tem mais um aniversário sem festa

Cidade celebra mais um ano de forma simbólica: em silêncio

Matheus Augusto

Muitos não sabiam, mas o tradicional desfile do aniversário de Divinópolis, em 2017, quando a cidade completou 105 anos, era a última caminhada pela avenida 1° de Junho. Com o agravamento da crise, principalmente a econômica, responsável por afetar áreas como educação, cultura, segurança, saúde e outras, o município passou a soprar as velas em comemorações tímidas.

Ano eleitoral

Além do desfile, tornaram-se tradicionais os atritos políticos, intensificados neste ano em razão das eleições, ainda sem data oficial diante da pandemia. Era de se perceber que, desde o início da gestão do prefeito Galileu Machado (MDB), o caminho não seria fácil. O recém-eleito viu a Câmara votar quatro pedidos de impeachment, todos rejeitados. A cada ano, o Legislativo se mostrava mais desunido, mesmo sendo composto pela base do prefeito, em descompasso do Executivo.

Dentro da Câmara, acusações contra a má gestão de determinadas secretarias, críticas ao prefeito e discussões acaloradas entre vereadores, no ano passado, inclusive, Edsom Sousa (Cidadania) precisou de atendimento médico após se desentender com Dr. Delano (MDB). Mirando as eleições, o clima, que já não era dos mais agradáveis, acabou, com o tempo, piorando. Em exemplo recente, parte dos vereadores abandonou o Plenário durante a discussão do projeto para reduzir o vencimento para um salário mínimo, com o intuito de evitar a votação da proposta, após acusações de traição e ditadura entre base, oposição e membros da Mesa Diretora.

Um dos capítulos da política divinopolitana se desenrolou em setembro, quando os vereadores se preparavam para votar mais um pedido de afastamento contra Galileu. Na oportunidade, o vice-prefeito, Rinaldo Valério (DC), visitou Eduardo Print Jr (PSDB). O encontro na véspera da votação é comprovado pelas câmeras de segurança da residência do edil, mas o conteúdo da conversa teve diferentes versões. Segundo Print contou no dia da apreciação da denúncia, o vice-prefeito teria tentado convencê-lo a mudar o posicionamento da base para tirar Galileu do cargo e, consequentemente, assumir o posto.

Rinaldo negou a acusação.

Após o caso vir a público, ao menos três pessoas (dois assessores e um secretário) ligados ao vice-prefeito foram exonerados. 

Imparcialidade

Com a maioria na Câmara, os processos de impeachment foram todos derrotados. No entanto, a Justiça também investigava o prefeito devido, dentre outros motivos, à oferta de cargo público a Marcelo Máximo, conhecido como Marreco, para receber sem trabalhar. O Ministério Público (MP) propôs a denúncia em junho de 2018, mas, neste ano, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) rejeitou o pedido, que poderia resultar na cassação do mandato. 

O juiz Núbio de Oliveira Parreiras, responsável pelo caso, alegou em sua decisão que não ficou caracterizada a violação aos princípios que regem a Administração Pública, pois a nomeação de Marcelo Máximo não chegou a produzir efeitos concretos.

Mais uma vez, Galileu, mesmo sob fragilidade política, se manteve no cargo.

Economia

O dinheiro tem sido fator fundamental para impedir a cidade de celebrar seu aniversário como em anos anteriores. A expectativa para este ano era de melhora econômica em relação aos períodos anteriores. Após acordo entre a Associação Mineira de Municípios (AMM) e o Estado, as prefeituras começaram a receber em janeiro os recursos retidos pelo ex-governador, Fernando Pimentel (PT). Apesar de a promessa ter sido mantida nos primeiros meses, com a queda nas receitas causada pelo novo coronavírus, a situação pode mudar. Conforme informou o governador Romeu Zema (Novo), estão sendo estudadas alternativas para a readequação do fluxo de pagamento “até que a pandemia passe e o Estado possa recuperar a arrecadação”. 

Em Divinópolis, o cenário não é diferente. A Prefeitura contabilizou queda de mais R$ 5.306.345,02 na arrecadação do mês de abril, se comparada ao mesmo período em 2019. Como consequência, o Executivo voltou a parcelar o salário dos servidores. Para superar tais adversidades, a Secretaria de Fazenda (Semfaz) acompanha a aprovação de projetos de recuperação e auxílio financeiro aos estados e municípios na esfera federal.

Para 2020, sem dinheiro e impedida de promover aglomerações, o aniversário de Divinópolis deve, pelo terceiro ano consecutivo, ser comemorado apenas no imaginário.

Sem festa

Pela primeira vez em sua história, em 2018, a Prefeitura cancelou o tradicional desfile cívico, realizado desde 1912, marco da emancipação. Na época, o cerimonial do Executivo justificou a decisão com a greve dos caminhoneiros. 

No ano seguinte, mesmo com os caminhoneiros rodando pelas estradas, a festa também não aconteceu. Desta vez, o motivo alegado foi a dificuldade financeira vivida pelo Município. A Prefeitura informou, na época, que são gastos cerca de R$ 70 mil para montar a estrutura.

Assim, em 2019, o prefeito Galileu Machado (MDB) e outros representantes políticos da cidade celebraram a data comparecendo à missa em ação de graças, presidida pelo bispo dom José Carlos, na Catedral do Divino Espírito Santo. Logo depois, participaram da solenidade de hasteamento das bandeiras na rotatória da praça Dom Cristiano, que contou com a participação da Banda Municipal de Música. E, assim, Divinópolis comemorou seus 107 anos de história.

Participação popular

Aos 105 anos, Divinópolis realizava seu último desfile. Naquele ano (2017), a Prefeitura esperava cerca de cinco mil pessoas nas ruas. Às 8h30, cerca de 43 escolas e entidades envolvidas na celebração iniciaram o desfile: fanfarras, Organizações Não-Governamentais (ONGs), secretarias, torcidas organizadas, ciclistas, motociclistas, misses, militares… Além disso, o evento era encerrado com a também tradicional cavalgada. A cidade celebrava o que mais tem de precioso, responsável por sua identidade: seu povo.

Agora, ao completar 108 anos, Divinópolis se vê em uma situação delicada, principalmente para uma cidade polo na região: faltam recursos e não há perspectivas em curto prazo de repasses significativos na esfera estadual ou federal (com 239 mil habitantes, a cidade elegeu apenas um representante em cada esfera); as ruas terminam, os buracos não; obras importantes para a cidade não são entregues na data prevista ou não possuem previsão para retomada, como a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE Itapecerica), o Hospital Regional, a duplicação da MG-050… 

Mesmo com recursos e sem a preocupação do vírus, Divinópolis não teria tantos motivos para comemorar.

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