Segunda chance é como leite derramado ou café requentado

Fernanda Vargas

O que fazer com o sentimento de vazio que nos visita quando nos desapontamos com quem amamos? O que fazer com aquela dor que nos invade quando já demos a segunda ou até mesmo uma terceira chance e, novamente, somos desapontados?

É muito comum criarmos expectativas sobre as pessoas, principalmente àquelas que nos despertam muito afeto, como parentes próximos, chefes, colegas de trabalho, empregados e amigos. Esperamos o mesmo tratamento que damos a estas pessoas, afinal, são ao menos, para nós, pessoas queridas, a quem desejamos o bem.

Acontece que a vida não é tão simples como uma receita de bolo que guardamos na cabeça. Existe a ingratidão e pessoas insensíveis. Isso não vai mudar. Mesmo que você faça de tudo para agradar determinadas pessoas, não quer dizer que vai receber na mesma moeda.

Embora tenha a frase que gentileza gera gentileza, o mesmo não se pode dizer que generosidade e amor gera gratidão. 

Acostume-se a ouvir que tudo que fez não foi mais que obrigação. Pois se não se acostumar a vida vai te ensinar. Criar muitas expectativas, nos mais variados relacionamentos que temos, seja familiar, social ou decorrente do trabalho, uma vez ou outra vai gerar frustração.

Muitos pais criam expectativas quanto aos filhos, acreditam que irão valorizar os estudos, serem um reflexo ou uma extensão deles, os pais, e quando isso não acontece gera aquele sentimento de fracasso e a típica frase vem à tona: Onde foi que eu errei? E a resposta é simples: você não errou e não adianta encontrar culpados também. As pessoas são como são, não são iguais, como não são os dedos das próprias mãos. Nem filhos criados com os mesmos pais e com as mesmas condições financeiras significam que irão ter o mesmo sucesso profissional ou pessoal. 

No mundo corporativo, provavelmente, em algum momento, iremos nos desapontar, seja como chefe ou como colaborador. Tem empresas que se desdobram para dar a determinados funcionários tudo que pedem e precisam, mas não significa que serão gratos por isso. E tem funcionários que abrem mão de suas vidas para se dedicar à empresa e nem por isso eles tem a garantia de reconhecimento profissional. A vida é feita de surpresas, alegrias, mas também de desapontamentos.

Por isso, nesses inevitáveis desapontamentos que teremos pela vida, no momento que ele acontecer prepare-se para sentir-se sozinho, sem chão, frustrado, mas ciente de que essa dor passará. Esse sentimento de vazio faz parte da nossa existência, como diz Rubens Alves: “A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta.
A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida.
Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito.
E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas”.
Às vezes, sentir-se vazio lhe trará um bem futuro, pois lhe dará oportunidade de repensar relacionamentos, amizades, amores e trabalhos. E fazer, como diz Rubens Alves, ficar num vazio como a lagarta para transformar-se numa borboleta. Pena que muitas pessoas não deixam a  vida ser alegria, são pessoas ingratas e que nunca aprenderão a dizer obrigada, a reconhecer um esforço e a pedir perdão.

Se formos observar, esperamos da vida e das pessoas mais do que elas podem nos dar ou querem nos dar e isso é uma das causas desse vazio no peito, dessa infelicidade constante que nos deparamos. O ideal é tentar achar e conviver com pessoas que pensam como nós, que têm os mesmos princípios e ideais de vida. Não adianta insistir no leite derramado ou no café requentado. O leite derramado acabou, se salva uma ou duas colheres e o café requentado não tem mais aquele cheiro e ainda queima a boca.

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