Saúde mental na quarentena

Talyta Silva

Com o aumento no registro de casos da covid-19, doença causada pelo coronavírus, a saúde mental das pessoas é uma preocupação de especialistas. Principalmente em razão da necessidade de distanciamento social, o momento exige que todos reorganizem as rotinas.

Um dos primeiros efeitos da quarentena é a desorientação atencional. A pessoa se sente mais confusa, menos concentrada, muito mais cansada. Ela pensa que vai trabalhar em casa e vai conseguir descansar, mas não é isso que acontece. 

É uma crise geral, mas é muito importante ter em mente que isso tudo vai passar. Pode demorar muito tempo, pode demorar mais tempo do que a gente gostaria, mas vai passar. Trata-se de uma situação com várias fases e que está apenas começando. Ter consciência disso é muito importante para fazer a travessia deste momento.

 Destaco os possíveis efeitos da quarentena em dois grupos de pessoas. O primeiro é de quem nunca foi ansioso, mas passa a ter ansiedade; nunca teve insônia, mas fica com dificuldade de dormir; apresenta reações muito agressivas ou irritadas; ou então começa a se sentir confuso ou desorientado.

Do outro lado, estão aquelas pessoas cujos efeitos da quarentena intensificarão as dificuldades e fragilidades que já estavam presentes antes. Por exemplo, para um paciente com uma orientação paranoide (um tipo de transtorno de personalidade), é possível que a quarentena incremente o sofrimento ou traga um efeito relativamente apaziguador. Outro exemplo são as pessoas com fobia social e que diariamente lutavam para ir ao trabalho. Em casa, elas podem se ver em um ambiente mais protegido, mais favorável.

Uma atitude preditiva para um mau percurso são aqueles que negam a gravidade da epidemia. Esse tipo de negação é muito ruim porque, no fundo, sabemos que é uma espécie de autoengano, às vezes de autoengano coletivo. E tende a produzir uma espécie de ruptura, de violação, de sentimento de traição, de instabilidade psíquica derivada da ruptura das nossas referências simbólicas.

 Algumas pessoas lidam com o medo, emoção esperada diante da situação: com excessivo compartilhamento de informações. Os dados confiáveis são muito importantes, agem até como medidas protetivas. Mas há quem, em vez de se acalmar, se aquietar e se conter, age com muita compulsividade, seja na obtenção ou na disseminação de informações, sem uma reflexão ou contextualização.
Quem está na quarentena tem algumas tarefas a cumprir. A primeira é a reorganização cotidiana e pensar em horários para fazer cada coisa. A segunda tarefa é cuidar da higiene e manter a salubridade corporal, pois os cidadãos entrarão em um período de baixa atividade física, o que os fragiliza.

 Também é recomendado a prática da meditação. O Conselho Regional de Psicologia autorizou o tratamento psicológico on-line. Se os sintomas de ansiedade e depressão passarem da conta, sugere-se procurar ajuda de um profissional da área e pensar em um tratamento via internet.

Para o equilíbrio mental,  fazer pausas ao longo do dia e encontrar atividades que não sejam exatamente produtivas, mas, sim, restaurativas: pode ser uma leitura, a jardinagem, o cuidado com os animais, ou a arrumação de armários e da casa ou mudar os móveis de lugar.

Outra coisa muito importante é a recuperação dos laços afetivos e sociais: aquele avô ou avó talvez precise de alguns empurrões para, finalmente, entrar no mundo digital, e conversar, por exemplo, via Skype (comunicador de voz e imagem pela internet).

 Há lugares nos quais o aplicativo fica ligado durante o dia, continuamente, e não apenas durante as ligações, assim podem ouvir e partilhar a rotina diária com pessoas que estão em outra residência. São usos diferentes para recursos com os quais a população já está acostumada. E assim fica mais leve lidar com este processo.

talytalaysilva@ig.com.br 

 

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