Saúde e economia: o dilema no trato do novo coronavírus

Entidades pedem planejamento da Prefeitura; Município se alinha ao decreto de Romeu Zema

Paulo Vitor Souza

Há pouco mais de um mês a cidade de Milão iniciou a campanha “Milano non si ferma” (em português: Milão não pode parar). A campanha estimulava a continuidade das atividades sociais e econômicas, mesmo com as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que pedia o isolamento como forma de controle da pandemia do coronavírus. A esta altura, a Lombardia, região onde se encontra Milão, já registrava 258 casos confirmados, enquanto a Itália inteira contabilizava 12 mortes em decorrência do contágio da doença.

O prefeito de Milão, Giuseppe Salapediu, pediu desculpas na semana passada por ter apoiado e compartilhado a campanha. Hoje, a Itália tem mais de 13 mil mortos por causa da doença. No Brasil, os estados implementaram medidas restritivas para frear o avanço do vírus, devido à escalada de casos confirmados que o país tem registrado nos últimos dias, além da falta de kits para testar a população. 

Isolamento 

O isolamento decretado por alguns estados impede a abertura de determinados tipos de serviços e  parte do comércio, com o objetivo de evitar a aglomeração e circulação de pessoas. Segundo um estudo da Imperial College, um instituto de pesquisa Londres, o Brasil poderia registrar até um milhão de mortes por causa do Covid-19, caso medidas de distanciamento social não sejam adotadas. Além do distanciamento social, o Imperial College apontou outras medidas que precisam ser consideradas, como o isolamento de grupos de risco e os testes para diagnósticos. A pesquisa considerou o impacto da doença em 202 países e concluiu que as medidas de segurança podem salvar 38,6 milhões de pessoas no mundo todo.

Ainda há um conflito em relação à inserção do isolamento social nas medidas de enfrentamento da doença. 

Países como Holanda e Reino Unido adotaram a prática de isolar apenas uma parte da população, mas retrocederam com a publicação do estudo da Imperial College. O país que adotou o isolamento vertical e que viu a doença regredir foi a Coreia do Sul, entretanto, o país asiático testou em massa a população, conseguindo, assim, mapear e frear a propagação.  Nos Estados Unidos, Donald Trump, que, assim como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), inicialmente minimizou o impacto do vírus, chegou a cogitar o fim das medidas de isolamento até a Páscoa, para, segundo ele, reativar a economia. O presidente americano mudou o discurso após ouvir especialistas e pediu que os americanos sigam com rigor as instruções de segurança até 30 de abril.  Por aqui, o presidente brasileiro também já voltou atrás em algumas posições.

Divinópolis 

Como em outras cidade do estado e do país, a classe de empresários e comerciantes de Divinópolis demonstra preocupação com a situação econômica do município, que se alinhou ao decreto estadual de Romeu Zema (Novo), instituindo o fechamento de parte do comércio.

Uma carreata no último sábado, 28, pediu a reabertura do comércio da cidade. Empresários de vários setores se organizaram através de um grupo de WhatsApp. O trajeto da manifestação terminou em frente ao prédio da Prefeitura.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Luiz Ângelo, disse que a CDL, junto a outras classes, protocolou carta aberta na Prefeitura pedindo determinações sobre a real situação do comércio e a volta do funcionamento, já que as medidas dos municípios estão colocadas por tempo indeterminado. Segundo ele, há, por parte da CDL, um movimento de conciliação de algum grau de abertura comercial com base no planejamento de combate à doença e em acordo com as medidas sanitárias.

— Manter o fechamento do comércio com o prazo indeterminado pode levar a um problema social e econômico em uma ordem de grandeza que a gente nem imagina (...). O setor do comércio emprega 15 mil e o setor de serviços emprega 22 mil pessoas, então, nós temos, na verdade, um grande volume de mão de obra nestes dois setores, que são os mais impactados com pelas medidas restritivas — disse o presidente do órgão.

Luiz Ângelo lembrou o possível fechamento de empresas na cidade e risco do alto índice de desemprego. Perguntado se a volta do comércio contraria as indicações de saúde, ele disse que não há nenhuma pressão irresponsável sob o poder público, mas um pedido de planejamento.

— O que nós temos colocado é que setor público avalie essa situação e que haja um planejamento de retorno das atividades (...) isso a gente cobra e não vejo nenhum problema quanto a isso, porque estamos pedindo um planejamento, é o que as entidades pedem — ressaltou.

A Associação dos Advogados do Centro-Oeste (AACO) é outro órgão que também tenta conciliação com a Prefeitura acerca da reabertura do comércio. O grupo de advogados protocolou ofício em que consta o pedido de promulgação de novo decreto municipal que autorize a reabertura do comércio. O documento ainda sugere a verticalização do isolamento social, proposta até então defendida pelo presidente da República. A Prefeitura, no entanto, dá sinais de que manterá as medidas.

— O que nós colocamos na Prefeitura foi apenas uma sugestão para que avaliem na questão jurídica, na questão econômica os impactos que isso pode gerar futuramente — disse o presidente da associação, Sérgio Eustáquio Martins.

O presidente da AACO afirmou ser temerária a comparação entre Brasil e outros países que enfrentam a situação do coronavírus. Segundo ele, a entidade sugeriu ao Executivo uma avaliação dos impactos ao setor do comércio. No documento, a associação traz fragmentos de reportagens e afirma que a medida correta para o momento é “primar por métodos de prevenção consciente”, em alusão ao isolamento vertical. Sérgio Martins ainda frisou que o ofício protocolado não está baseado em questões técnicas da área de saúde.

— O documento da Associação dos Advogados não é técnico na questão de saúde, é técnico na questão jurídica e econômica (...). As entidades têm que se manifestar contra ou a favor, porque isso é uma coisa democrática — ressaltou Sérgio Martins, que elogiou o trabalho desempenhado pelo secretário de Saúde, Amarildo Sousa, à frente da pasta.

A Prefeitura vai se reunir para levantar novo posicionamento sobre a situação do comércio. Sobre o ofício protocolado pela AACO, o governo municipal defendeu que as medidas tomadas estão em consonância com “critérios técnicos ditados por profissionais especializados em infectologia e com experiência na área da saúde pública, que tomam como parâmetro, dentre outros fatores, os acontecimentos vivenciados no mundo por países que primeiro enfrentaram essa pandemia”.

Mundo 

A quarentena ainda é a medida mais eficaz para controle da propagação do novo coronavírus. O diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, afirmou ontem que é necessária uma estratégia de intervenções de saúde pública, monitoramento de casos, isolamento, quarentena e fortalecimento dos sistemas de saúde pública para absorver a pancada que a pandemia dará. Ele já havia afirmado na segunda-feira, 30, que o contágio do novo coronavírus está ultrapassando às ruas e sendo levada para dentro de casa.

A Organização Mundial ainda reforçou a necessidade de os governos  garantirem as condições básicas a pessoas que estão sofrendo impacto na renda e que precisam urgentemente de comida, saneamento e outros serviços essenciais.

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