Salva pelo pai

Augusto Fidelis

Lembro-me como se fosse hoje. Na sua última vinda a Divinópolis, dona Mariquita reuniu-se com seleta plateia no salão nobre do Estrela do Oeste Clube, durante um lauto café organizado por seus ex-alunos, para matar saudade da mestra. Era véspera do Dia dos Pais. Em determinado momento, a Internacional contou a seguinte história.

Estava ela sentada num banco do Parque Monceau, que fica no Centro de Paris, absorta na sua leitura diária, quando algo lhe chamou a atenção. De repente, passou bem na sua frente um coelho brando, de olhos róseos, colete vermelho, e dizia: “Estou atrasado”. Dona Mariquita deu um pulo do banco e exclamou para si mesma: “Caramba, que negócio é esse, um coelho falante?!”. Para aumento da sua surpresa, o coelho tirou do bolso do colete um relógio e, depois de conferir as horas, falou de novo: “Vou chegar muito atrasado”.

Incrédula, dona Mariquita saiu ao encalce do orelhudo e o viu desaparecer num buraco ao pé de uma grande árvore, que fica bem no meio do parque. Ao se agachar, para ver onde o danado se enfiou, foi atraída para dentro e ela começou a cair no vácuo, como uma pluma ao vento. Ao chegar ao fundo, logo descobriu que estava noutro mundo. Embora encantada com tudo que via, entrou em estado de choque ao ver uma lagarta que fumava tranquilamente num cachimbo dourado.

“Se esta lagarta fuma, deve falar também”, disse para si, já refeita. Em seguida, perguntou: “Dona lagarta, que rumo devo tomar?”. A lagarta deu uma baforada e respondeu: “Para quem não sabe aonde quer ir, qualquer direção serve. Siga adiante, mas cuidado com a rainha”.

Ao volver o olhar, a Internacional deparou-se com o coelho, que seguia adiante recitando a mesma ladainha: “Estou atrasado!”. Ao tentar correr atrás do retardatário, dona Mariquita se viu agarrada por uma legião de soldados de cartas de baralho, e uma voz logo sentenciou: “Cortem a cabeça dela!”.

Porém, em meio à soldadesca, outra voz se elevou: “Clemência, Majestade, esta é a minha filha, a Mariquita!”. Atônita, a Internacional exclamou: “Meu pai, o que faz aqui?!”. Ele respondeu: “Sabendo que você ia se meter numa enrascada, vim salvá-la. Enquanto vivi você me amou, respeitou e me deu muitas alegrias. Agora, receba a sua recompensa”.

O pai, então, pegou-a nos braços e ela desmaiou de emoção. Quando voltou a si, estava sentada no mesmo banco, e o livro, que lia, caído a seus pés. Uma repórter enxerida, que havia no Jornal Agora, insistia: “Mas isso foi um sonho, né?!”. Por pouco não teve a cabeça cortada. A sorte é que dona Mariquita tinha pressa para ir ao túmulo de seu pai, para reverenciar a sua memória. A propósito, caro leitor, estima leitura: feliz Dia dos Pais!

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