Rua ramalhete

Lembro-me das minhas botas gastas de tanto andar. O caminho de casa até o colégio era longo, mas não era mais longo do que as tardes sem você. Fazia frio, a neblina cobria a cidade e você me esperava na esquina para irmos juntos toda manhã. Você tocava meu gorro rosa com as duas mãos e eu me sentia inteiramente aquecida. Eram nossas manhãs ingênuas. Um coração desenhado no caderno. A nossa música tocando em algum lugar e todos os meus livros espalhados na cama. Eu era apenas Alice e o universo me esperava para descobrir todas as estrelas do infinito. 

Entre provas, canetas coloridas e livros, eu escondia a nossa história. Brincávamos de ser e éramos sem saber. Éramos um do outro. Éramos de cada um. E os sonhos que sonhamos juntos não couberam em lugar nenhum sozinhos. Se é assim que se aprende amar, eu posso dizer que amei aprender com você. 

No fundo, eu sabia que outros encantos te encantariam e que a minha grande viagem ainda estaria por vir. Mas você fechava os meus olhos com um beijo e eu fingia que acreditava que seria sempre assim. E abraçados cantávamos juntos que "o caminho é um só”, mesmo sabendo que na manhã seguinte cada um tomaria um rumo diferente. 

Foram-se os bilhetes, o meu caderno eu não tenho mais. E você, meu cavaleiro de todos os sonhos, foi-se na névoa daquele inverno e nunca mais voltou. Às vezes, tenho saudade de mim e outras vezes de você. Mas o tempo não me permite parar para lembrar. A vida hoje acorda cedo, e quando chega a hora de sonhar eu já estou de pé. Demorei muitos anos para entender que o amor não vem num cavalo alado descido dos céus, e que príncipes e princesas hoje deixaram seus castelos e caminham juntos no asfalto lotado de gente. Foi-se a realeza e que seja muito bem-vinda a realidade! Ainda insisto em ter os cabelos longos, atendendo ao seu pedido de nunca cortá-los. Nunca mais fiz provas de física e o meu gorro azul virou caridade. Ah, que falta me faz minha avó e o café quentinho que ela sempre tinha para mim. Foi no colo dela que chorei a falta de você. E aquela serra bem em frente à nossa casa, onde eu parava o tempo e o tempo ria de mim. Era uma rua simples, uma vista da janela, uma serra e um frio, uma rua e um rio. Ó, minha doce e amada Minas Gerais! Quem viveu nas suas serras não te esquecerá jamais!

leila@leilarodrigues.com.br

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