Rosas para Rosângela

Raimundo Bechelaine

Quem atravessa a Praça do Rosário, em Carmo do Cajuru, e entra na Biblioteca Municipal vai sentir, na recepção, uma ausência. As funcionárias continuam a receber e orientar bem a todos. O ambiente continua limpo, organizado e acolhedor. Nas estantes, os livros esperam ser folheados, escolhidos e levados pelos leitores.

Parece que tudo está como sempre. Porém não. Rosa, uma das recepcionistas, não está mais lá. De repente, ao aproximar-se o findar do ano, ela partiu para a grande viagem sem retorno e sem bagagem, e deixa saudade em todos que estavam habituados a vê-la e falar com ela ali, na recepção. Nem chegou a fazer o presépio de tantos dezembros, devoção e arte que herdou de D. Clarinda, sua mãe.

Descobrimos agora, que ela chamava-se, na verdade, Rosângela Nogueira Quadros. Então era Rosa e Ângela. Mas todos a chamavam de Rosa simplesmente. Angélica, angelical é o que era, com a voz e o sorriso mansos. Impossível não sentir por ela simpatia e carinho, não gostar dela.

Um anjinho tagarela veio contar-nos que sua chegada ao céu foi um alvoroço. Os anjos que guardam a portaria celeste não contiveram o sigilo. Antes de o comunicado oficial chegar a São Pedro, os santos e santas e a anjaria toda já comentavam: “Sabe quem está chegando? Imagine, a Rosa da Biblioteca de Cajuru!”.

Pelo pouco que de lá se sabe, no céu não há bibliotecas. Há somente uma divisão especial, onde ficam os originais dos livros sagrados: a Bíblia, o Alcorão, o Mahabárata, os Vedas, o Baghavad Ghita, o Tao Te Ching, o Avesta e todos mais. Todavia, no céu estão os santos e santas que, quando viveram aqui na terra, foram escritores. Estes queriam o melhor lugar para ver chegar a Rosa. Pois são gratos a quem zela dos livros e os promove entre o público.

Lá vieram Santo Agostinho, São Tomás e todos os padres e doutores, Santa Teresa e Santa Catarina de Sena, Buda e Maomé, enfim todos. Os literatos Dante Alighieri, Luís de Camões, Shakespeare, Pessoa, Drumond e Guimarães Rosa também vieram. Não faltaram os filósofos. Tales, Parmênides e Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles, Descartes, Kant, Farias Brito e Sônia Viegas, Karl Marx, Rosa Luxemburgo e todos os marxistas e neomarxistas e até Simone de Beauvoir se perfilavam. O grupo cajuruense tinha à frente o professor Oswaldo Diomar.

Quando Rosa apareceu, foi um enorme aplauso e sucessão infinda de abraços, agradecimentos e expressões de boas-vindas. A algazarra maior foi dos anjinhos pequenos, em volta da nova bem-aventurada, jogando sobre ela (o que mais podia ser?!) pétalas de rosa. Mas ela não dizia palavra, apenas sorria o sorriso de sempre. jorababech@gmail.com

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