Razão ou coração?

Desde que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral, em 1500, e colonizado pelos portugueses, escuta-se por aí que político só serve para roubar e mais nada! Há de se colocar na balança e analisar com cuidado. Tem muita gente ruim por aí, espalhada nesses “executivos e legislativos” da vida? Tem sim! Tem muita gente preocupada apenas com o próprio bolso e os próprios interesses? Tem também! Mas há de se levar em consideração que tem muita gente boa lutando por um país melhor, desde os tempos das caravelas de Cabral. É preciso lembrar ainda de um fato que poucas pessoas consideram, mas ele está lá e cada vez mais escancarado, só não vê quem não quer. Se o Brasil hoje virou o país da corrupção, onde o crime compensa e não tem punição, quem ajudou a chegar a este ponto foi o próprio povo.

Fomos acostumados com migalhas. Corremos atrás e chegamos até mesmo a gostar delas. Criamos o nosso “jeitinho brasileiro”, que não nos favorece em nada – absolutamente nada –, mas nos orgulhamos, afinal, é a nossa marca registrada mundo afora. E a situação é fácil de exemplificar. O Camelódromo, no Centro de Divinópolis, era como um câncer crescendo dentro de uma pessoa. Em 2007, o então prefeito Demétrius Arantes (PT) fez um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), criando o espaço no quarteirão fechado da rua São Paulo, para tirar os vendedores ambulantes das principais vias do Centro da cidade. Entre as exigências estavam: não vender, não alugar, não emprestar e não arrendar nenhum box. Cada vendedor teria direito ao seu espaço e ali trabalharia. Mas, 13 anos depois, a situação estava simplesmente caótica.

Teve gente que enriqueceu vendendo e alugando box no Camelódromo, eles já não respeitavam mais o espaço delimitado e abordavam as pessoas na rua, prejudicando o comércio no entorno, sem contar as drogas ilícitas, como abortivos, que eram encontradas facilmente no local. O problema passou de gestão em gestão, mas ninguém queria “mexer com isso”, pois ali estão algumas centenas de eleitores, e se tem uma coisa que político não quer é desagradar eleitor. Afinal, fomos “criados” assim. Inventamos um sistema de moeda de troca “político x eleitor”, que, no fim das contas, nunca nos levou a lugar algum, apenas andamos em círculos. Bom, o câncer cresceu e chegou ao ponto que era necessário retirá-lo. Ali, a razão teria que falar mais alto que o coração, ou melhor, mais alto que o sistema criado entre político e eleitor. Era necessário retirar o Camelódromo do Centro, “doa a quem doer”.

Foi só falar o que eleitor não queria ouvir que começaram as ameaças de “este ano tem eleição, hein?”. O sistema falou mais alto. É verdade que a conduta da Prefeitura para a retirada dos vendedores local foi exagerada. Era preciso um pouco mais de sensibilidade e empatia, afinal, estavam lidando com trabalhadores, que ajudam a economia da cidade a girar. Mas é verdade também que precisamos parar (ambos os lados), para buscar uma nova direção, pois esse sistema criado entre políticos e eleitores não está funcionando há um bom tempo. É preciso entender que algumas vezes a razão tem que falar mais alto que o coração.

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