Raiva da humanidade

Augusto Fidelis

Ontem, bem de manhã, encontrei-me com a Adelaide Madureira na esquina da rua Goiás com a avenida Antônio Olímpio de Morais, aos gritos, lançando as sete pragas do Egito sobre um motoqueiro encapetado, que sumira dos nossos olhos como um corisco. Nem sei se as pragas conseguiram alcançá-lo.

Eu, que caminhava tão descontraidamente, não vi o que aconteceu antes, porém, indaguei da praguejante o que ocorrera:

— O que foi, Adelaide, que desatino é esse, minha amiga?!

— O desgraçado daquele motoqueiro avançou o sinal e quase me pegou. Por pouco não me transformou num anúncio fúnebre. Vou dizer-lhe uma coisa: está me acontecendo algo muito triste, ruim, eu diria: tomei raiva da humanidade. Faço minhas as palavras de Ney Latorraca: “Quanto mais conheço o ser humano, mais gosto do meu cachorro”.

Levando em conta o tempo que a Adelaide permaneceu conversando comigo, sobre os mais variados assuntos, observei que eu ainda não estou contado entre aqueles que a estimada amiga deseja mandar para os quintos. Na verdade, viver não é difícil; conviver é que se torna o problema, pois a gente não quer mudar e não consegue mudar o outro, cada vez mais pirracento.

Ainda ontem, à tarde, presenciei um debate entre duas pessoas que faziam caminhada no calçadão dos Rouxinóis. Um não usava máscara sob o argumento que ao ar livre nenhum vírus subsiste, e que a máscara obriga o sujeito a inalar o gás carbônico que ele próprio expira, o que, com o tempo, envenena o sangue. A coisa chegou a esse ponto:

— Oi, coloca a sua máscara e vai cuidar da sua vida. Não tenho satisfação a lhe dar. O vírus é transmitido de pessoa para pessoa, através de gotículas, e não pelo ar. Você é virulento e está chegando muito perto de mim. Caramba, sô!

— Ignorante! Você não viu o decreto, vão proibir a gente de caminhar aqui, tudo por causa de gente igual a você que não segue as regras, não respeita as normas.Com gente assim a humanidade está perdida. Que ódio!

Pois é, o estranhamento entre os seres humanos está cada vez mais acentuado,agravado com essa pandemia de covid-19, principalmente por culpa das autoridades que preferem confundir ao povo em vez de agir com claridade. Soma-se a isso as más intenções, a politicagem, os interesses inescrupulosos. 

Embora seja algo muito triste, procuro entender as razões da Adelaide ao jogar pedras de fogo sobre o motoqueiro que quase a atropelou. De acordo com uma lei aprovada recentemente no Congresso, quem matar um cachorro pode pegar até cinco anos de prisão. Mas, se alguém mata seu semelhante, não acontece nada, pois a vida já não tem o mesmo valor. Em verdade, está tudo podre. Uma lástima!

augustofidelis1@gmail.com




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