Quem paga a conta?

Editorial

Sem sombra de dúvidas, uma das maiores e melhores políticas públicas de saúde que o Brasil já teve em sua história foi a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Não há nada capaz de mensurar o ganho que a população brasileira teve. Vacinas, consultas, exames, medicamentos, cirurgias, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Vigilância Sanitária… Uma infinidade de serviços que não conseguiríamos colocar neste espaço. Mas, assim como não damos conta de mensurar os ganhos que o Brasil teve com a implantação do SUS, talvez também não consigamos enumerar as melhorias que ele precisa ter. Afinal, o Sistema Único de Saúde foi criado em 1990, e de lá para cá muitos serviços foram incluídos, porém, poucos foram aprimorados. 

A prova disso está aí, com o esgotamento dos leitos nos hospitais no enfrentamento à pandemia da covid-19. Há pouco mais de um ano, quando tudo começou, o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta expôs diversas vezes a fragilidade do SUS e “previu” tudo isso o que está acontecendo hoje. Ele pediu em diversas coletivas de imprensa que a população colaborasse com as medidas de prevenção, que na época eram uso de álcool em gel e distanciamento social; em maio, vieram as máscaras faciais. O pedido era: previnam-se, o SUS não suporta um contágio acelerado. Hoje, pouco mais de um ano que tudo isso começou no Brasil, o resultado foi exatamente o previsto por Mandetta. O sistema público não suportou o comportamento da população e acabaram-se leitos, oxigênio, insumos e medicamentos em várias regiões do país. Os profissionais da saúde escolhem a dedo quem tem chances de sobreviver para direcioná-lo para um atendimento mais eficaz. O restante fica à própria sorte. 

Mas a grande questão do SUS é: onde está errado? Falta dinheiro? Faltam investimentos nos setores certos? O que levou algo tão grande a um caos como este? Quem é o culpado? Como um serviço benéfico chegou a este ponto? Faltou fiscalização do Poder Legislativo? E tudo isso vem atrelado, claro, ao desenvolvimento econômico. E aí, mais uma vez, a conta não fecha. Como sobreviver durante uma pandemia sem incentivos fiscais, sem ajuda dos governos, sem um planejamento condizente com a realidade? O medo de ter o seu comércio fechado bate à porta mais uma vez e, com isso, o desespero. O que se vê nas redes sociais são empresários usando o termo “melhor morrer lutando do que entregar os pontos”. Em outras palavras, eles preferem se arriscar, a baixar as portas. Por outro lado, os infectados lutam por suas vidas, por uma vaga, por atendimento em um SUS que, neste momento, começa a ruir, como avisado por Mandetta em março do ano passado. 

Diante desse Brasil desgovernado ‒ há anos ‒ e que hoje entrega “seus filhos” à própria sorte, a pergunta que fica é: quem paga a conta por esse desgoverno? O contaminado que espera uma vaga no SUS, ou o empresário que volta e meia precisa baixar as portas de sua loja, seu empreendimento, que arduamente luta para ter? Hoje, o brasileiro está basicamente vivendo aquele ditado: “se ficar o bicho pega, se correr, o bicho come''.

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