Quanto VALE uma vida?

Editorial

O dia 25 de janeiro é único para centenas de famílias mineiras. Desde 2019, essa data ficou marcada como a “Tragédia de Brumadinho”. O dia em que diversas famílias foram marcadas para sempre, da pior forma: com a morte. Era por volta das 12h quando o refeitório da mineradora Vale, em Brumadinho, que estava lotado de funcionários e outros prestadores de serviços, foi levado pela lama. A barragem de rejeitos de Córrego do Feijão havia rompido. A força da lama invadiu, além do refeitório, o setor administrativo, trabalhadores que estavam no pátio e a comunidade da Vila Ferteco. Levou consigo vidas, sonhos, sorrisos, histórias. 

Desta data para cá, exatamente às 12h28min25s, a lama arrastou consigo famílias, que, a partir daquele momento, nunca mais seriam as mesmas. Dois anos se passaram e ainda é possível ouvir os gritos de William à procura da irmã de 16 anos, que estava desaparecida. Desesperado, ele se ajoelha e beija os pés de uma mulher em busca de informações da jovem. Hoje, dois anos depois, 11 pessoas continuam desaparecidas. Angelita, Cristiane, Juliana, Lecilda, Luis Felipe, Maria de Lurdes, Nathalia, Olimpio, Renato, Tiago e Uberlandio. São estes os nomes que ainda compõem o time da “saudade”. 11 filhos, 11 vidas, sonhos, sorrisos e infinitas histórias que permanecem perdidas no “mar de lama” da Vale. 

Essas famílias não puderam nem ao menos enterrar seus entes queridos e precisam conviver, além da saudade, com a esperança de um dia poder dar uma despedida digna àqueles que um dia saíram para mais um dia comum de trabalho e nunca mais voltaram; àqueles que disseram “tchau, até mais tarde”, mas não viram o “até mais tarde” chegar. Dois anos de saudade, de esperança e de injustiça. Dois anos que Angelita, Cristiane, Juliana, Lecilda, Luis Felipe, Maria de Lurdes, Nathalia, Olimpio, Renato, Tiago e Uberlandio e outras 259 vidas viraram estatísticas. Dois anos que ninguém foi responsabilizado por um dos maiores crimes ambientais do país ‒ e considerado hoje o segundo maior desastre do século. Dois anos que as famílias aguardam os R$ 40 bilhões de indenizações, que ainda não foram pagos pela Vale aos atingidos. Dois anos que o Brasil mais uma vez deu aula de “impunidade”. 

Hoje, dois anos depois, o que restou foram números, saudades e impunidade. 270 vidas foram interrompidas. 11 famílias seguem em busca dos corpos de seus entes queridos, para que possam ser enterrados de forma digna. A Vale não indenizou as famílias e não conseguiu fechar o acordo com o Governo do Estado como forma de compensação pelo crime ambiental. 270 vidas perdidas, famílias marcadas para sempre por este desastre e ninguém foi responsabilizado. É triste, mas a verdade a se dizer é: tudo normal no país da imoralidade. E a pergunta de um milhão é: quanto VALE uma vida? Quanto VALE uma vida no país da impunidade? Vidas perdidas, sonhos interrompidos, famílias marcadas, um desastre ambiental sem precedentes, tudo isso em nome de quê? Em nome de quem? Do dinheiro que não traz essas vidas de volta e que não recupera esses sonhos perdidos? Seja bem-vindo, você está no Brasil, o país da desigualdade e da injustiça. 

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