Pronto-Socorro Regional

Adriana Ferreira

 

Há mais de 10 anos fui atendida no Pronto- Socorro Regional e fiquei encantada com o atendimento. Havia leitos vazios, pois nenhum paciente lá permanecia após estabilizado, pelo menos foi a informação que obtive naquele dia. No início de 2014, meu saudoso pai, Geraldo José Ferreira, sofreu uma queda e foi conduzido pelo resgate do BMMG para o dito Pronto- Socorro Regional.  Quando lá cheguei para vê-lo, lá estava ele no mesmo quarto que eu havia ficado anos antes e lá havia mais três homens e três mulheres. Ou seja, o quarto que era somente para atendimento feminino, havia se tornado unissex. Ao ver meu pai ali, compondo aquele cenário horroroso, um homem que jamais ousou sequer usar bermuda perto das filhas e demais mulheres não merecia aquilo não. Então, chamei meus irmãos e disse: “um homem não pode dedicar a vida à família e ficar aqui nesse estado”. E aí juntamos nossas economias, contraímos empréstimos, e internamos nosso pai no Hospital São Judas Tadeu, onde ele teve o devido atendimento e tratamento, inclusive com procedimento cirúrgico e embora tenha morrido 45 dias após  a queda, oferecemos para ele 45 dias com mais qualidade de vida.

UPA Padre Roberto

Posteriormente o serviço de urgência/emergência foi removido para o bairro Ponte Funda, mudando o nome para Unidade de Pronto Atendimento Padre Roberto – à espera de um milagre? - mas tudo que sempre soubera a respeito da UPA, era através de terceiros, pois tirando essa experiência com meu saudoso pai, eu não tive outra situação com o serviço público de saúde. Então, um dia desses resolvi ir até a UPA. Como não tinha nenhum familiar ou conhecido, permaneci do lado de fora observando, mas era um dia calmo e pensei até que havia exagero nas más notícias divulgadas.  

Cenário de guerra

Segunda-feira última, voltei lá. Desta vez, para fazer uma visita e fiquei horrorizada com o que vi. Se o Pronto Socorro-Regional oferecia um cenário horroroso, com a UPA conseguiram piorar o quadro. Está mais para cenário de guerra. Aliás, dependendo do país envolvido, os soldados estão mais bem servidos. São subumanas as condições dadas aos pacientes e inexistem condições de trabalho.  Na minha singela opinião, a mudança para um bairro tão distante do centro nervoso da cidade e longe das principais rodovias de acesso não  melhorou a qualidade de serviço oferecido, não se tratou de “metropolização” das zonas periféricas, mas sim uma forma de não assustarmos possíveis investidores e turistas. No bairro Ponte Funda escondemos um vergonhoso problema.

Paciente

Sobre a paciente que fui visitar, trata-se de uma senhora idosa, viúva, sem condições financeiras para ser removida para um hospital particular. O que mais me assusta é que dias antes ela foi submetida a um procedimento cirúrgico no Hospital São João de Deus - neoplasia maligna de mama – pelo SUS e se encontra na UPA devido a complicações pós-cirúrgicas não percebidas pelo médico assistente quando do retorno. A princípio, há aí um erro médico e hoje recebi a notícia de que houve retirada de líquido do pulmão, ou seja, ela deu entrada na UPA devido a um problema causado por inobservância de terceiro e embora o corpo clínico esteja fazendo milagres, pois não há condições de trabalho, tem-se que não deveria estar “hospitalizada” na UPA e sim no hospital onde sofrera a intervenção cirúrgica, pois o risco de agravamento, seja por complicações do próprio caso, seja por infecção, é iminente. Onde fica o princípio da dignidade humana, garantido constitucionalmente?

Judicialização I

Nem todos têm condições de arcar com os custos de uma internação particular, seja com ajuda da família, seja comprometendo a renda que porventura possua. Assim, o caminho tem sido judicializar a saúde, conforme orientei a filha da pessoa que fui visitar. Expliquei que não tendo leito nos hospitais públicos, através de um processo judicial, o governo se vê obrigado a pagar pela internação em um hospital privado. Estão providenciando a documentação.

Judicialização II

Antes os casos de judicialização eram isolados, mas nos últimos cinco anos houve um crescimento de 92% e, com isso, as ações judiciais comprometem uma parcela significativa do orçamento para atender demandas específicas. Com pedidos de internação e ainda pedidos de medicamentos e procedimentos, gasta-se bilhões ao ano. Se não fosse a corrupção e a incompetência dos gestores do dinheiro público, tal não ocorreria. Não haveria que se falar em judicialização, pois, com o uso devido da verba destinada à saúde, um serviço público de qualidade estaria ao alcance de toda a população. Sem exceção!

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