Projeto incentiva leitura em alunos da zona rural

Intenção é desenvolver a capacidade de interpretação e argumentativa dos estudantes através de debates e visitas históricas

Matheus Augusto

Transformar a vida das pessoas através da leitura. Esse é o desafio e objetivo da professora de história Andréa Leite, que leciona na Escola Estadual Antônio Belarmino Gomes, no distrito de Santo Antônio dos Campos, em Ermida. Há mais de oito anos ela criou o projeto “História: ouvida, falada e vivida”, que tem como objetivo incentivar a leitura dos alunos do ensino médio. E, para aguçar o interesse dos jovens, ela propõe atividades, debates e até visitas a locais históricos, como forma de materializar a história. O Agora conversou com ela, idealizadora do projeto, para conhecer mais sobre o desafio e as conquistas até o momento.

História

O projeto trabalha a trilogia 1808, 1822 e 1889, do autor Laurentino Gomes, com os alunos do 1º, 2º e 3º ano do ensino médio. Andréa conta que desenvolve atividades para potencializar a capacidade dos estudantes em interpretar e argumentar sobre a obra.

— Eu proponho leitura, escrita, debate e faço também uma mesa redonda. Trabalho, por exemplo, dentro do livro, fatos do passado que acontecem no presente, na atualidade. A escrita é feita dentro do horário de aula como se fosse uma preparação para o Enem e eles não podem fazer essa atividade em casa, com auxílio de Google ou outras ferramentas. Então eles têm tempo e um mínimo de linhas a cumprir — explica.

Ainda segundo ela, o aluno, ao longo do ensino médio, consegue perceber seu avanço.

— Esse trabalho de escrita eu faço do 1º ano até o 3º. Eles usam o mesmo caderno de escrita para observar o avanço do vocabulário e de como eles estão escrevendo — conta Andréa.

Viagens culturais

E a professora de história ainda vai além, fazendo um esforço para, através de visitas a cidades históricas, materializar as palavras de Laurentino Gomes.

— Não é apenas ler o livro. Além disso, eles têm todo o processo de inserção no mundo em que, às vezes, eles não tinham acesso, porque são de uma comunidade rural — explica. 

Andréa Leite conta ainda que passeia com os estudantes por locais importantes na história de Minas Gerais e do Brasil.

— O projeto em si engloba argumentação, oralidade e escrita. Fora a parte cultural, que também é muito interessante, porque a cada livro eles fazem uma excursão histórica. Eu sempre tento colocar viagens para onde eles tenham o máximo de cultura e lazer. Então, consigo levá-los, por exemplo, a Diamantina, onde a gente faz todo o tour pela cidade pela manhã, contemplando o livro 1822, que fala muito sobre o início do nosso processo de independência. A gente bebe na fonte da parte da história de Minas Gerais da inconfidência mineira. Eu os levo também em um clube, tudo num dia só, e à noite a gente ainda assiste ao espetáculo da Vesperata. Então eles veem a história ao vivo. E na viagem a Petrópolis é a mesma coisa, com o livro 1889. Lá eles veem tudo o que aconteceu com o fim do Império de Dom Pedro II, vão a museus, teatros, show. Então o projeto engloba tudo, arte, cultura, lazer, escrita, oralidade e argumentação — detalha a professora.

E, ano após ano, ela diz que percebe o interesse dos estudantes crescer, após ouvirem os relatos de quem participou.

— Às vezes um aluno que não teve muito interesse no 1º ano, quando os outros voltam das viagens, a maioria já quer participar no 2º ano. Quando é no último, então, quase todos querem fazer parte. Então é muito interessante ver esse crescimento e o amadurecimento dos alunos — conta a professora.

Ela também diz que, através da leitura, dos debates, da escrita e das viagens, o desempenho dos alunos em provas e vestibulares tem melhorado.

— É interessante o resultado também, quando eles conseguem, principalmente em história do Brasil, ir muito bem nas provas externas. Já percebi uma melhora significativa — afirma.

Dificuldade

Segundo Andréa Leite, o principal desafio foi incentivar os alunos a ler, uma vez que a maioria deles nunca havia sido estimulada a essa atividade.

— No primeiro ano, quando lancei a ideia do projeto, a dificuldade foi convencê-los de que valia a pena ler, porque o aluno que chega ao ensino médio não quer escrever nem ler — conta.

Para superar essa adversidade, ela diz que é fundamental que o professor saia da zona de conforto e acredite no potencial dos alunos.

— Hoje o professor tem que sair um pouco do livro didático, eu acredito nisso. O material é muito importante, mas você consegue ir além dele. Você fazendo um pouco de esforço, não tendo tanto medo, tem que acreditar no seu aluno. Se você pôr fé nele, consegue resultado, sim — afirma Andréa.

Satisfação pessoal

A professora de história ainda conta que se sente realizada ao perceber os alunos descobrindo que são capazes de realizar as atividades solicitadas.

— Tem aluno que chora na hora do debate. Eles vão percebendo que aquilo não é tão difícil quanto eles imaginavam, e que eles apenas não tiveram essa prática e oportunidade, antes. Então, quando eles conseguem ler e argumentar em cima daquilo que o autor está tentando mostrar, veem que a realidade é outra, que eles são capazes, sim. O mais interessante é perceber o desabrochar do aluno, o olhar dele para ele mesmo, de que é capaz, que consegue fazer aquilo que eu estou cobrando — pontua.

Encontro

E, após anos abordando as obras de Laurentino Gomes, a professora e os estudantes Escola Estadual Antônio Belarmino Gomes, em Ermida, puderam conhecer o escritor pessoalmente neste ano. O encontro aconteceu no dia 9 deste mês, quando o autor foi até Belo Horizonte para lançar seu mais novo livro, Escravidão. Andréa conta que 44 alunos a acompanharam na viagem até a capital mineira, além da vice-diretora, Raquel Carvalho, e a professora de geografia Juliana Assis.

— Ele foi totalmente receptivo com os alunos, carinhoso. Fez questão de abraçar um por um. A gente ficou muito feliz porque ele realmente abraçou o projeto — conta.

Os alunos já haviam tido a oportunidade de conversar com Laurentino através de uma videoconferência.

— A gente está conversando com o Laurentino há cerca de dois anos. E, em 2018, ele fez uma videoconferência para os alunos. Pegou o 1º, 2º e 3º ano da escola inteira e conversou com todos. Nosso auditório não cabia todo mundo — informou.

Apoio

Para proporcionar essas experiências, Andréa agradece a todas as pessoas que acreditam e apoiam o projeto.

— É muito sacrifício para os alunos que são de escola pública. Até que a gente consiga arrecadar fundos, os pais invistam e acreditem no projeto, demanda um tempo. Mas graças a Deus deu certo, os pais confiaram em mim e foi uma noite gloriosa — agradece.

A professora de história ainda é grata à escola, através do diretor, Georges José, pelo suporte ao projeto.

— A escola sempre me apoiou, foi ela quem buscou recursos. A gente tem disponível na biblioteca da escola 20 edições de cada livro da trilogia (1808 1822 e 1889). E a foi a direção quem buscou verbas para ter essas obras na biblioteca para o projeto. Eles sempre me deram apoio desde que eu comecei — diz.

Questionada sobre o futuro do projeto, Andréa explica que o próximo passo é trazer Laurentino Gomes a Divinópolis.

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