Professora com quase 40 anos de carreira relata perseguição e demissão injusta

Escola do bairro das Oliveiras nega saída ilegal; alunos pedem retorno da educadora

Bruno Bueno

A pandemia mudou diversos aspectos na sociedade, dentre eles a educação. Giz, lousas, carteiras e mesas foram trocados por computadores e celulares com a chegada do ensino remoto. Alunos e pais relatam ter dificuldade de se adaptar com a forma de aprendizado que se tornou a mais segura em um momento sanitário tão difícil. Contudo, a classe que mais relata sofrer com as adversidades do ensino remoto é a dos professores. Dificuldades de conexão, falta de interação dos alunos e ausência de apoio estudantil estão entre os principais desafios enfrentados pelos educadores. Semelhante a essa situação, uma experiente professora do ensino fundamental, com quase 40 anos de carreira, que apresentava dificuldades em se adaptar com o ensino remoto, relatou ter sido, nas últimas semanas, perseguida e demitida injustamente de uma escola estadual de Divinópolis.

Entenda o caso

G.R.C.V., de 58 anos, 39 deles dedicados à educação, atuava como professora de ensino fundamental na Escola Estadual Vicente Mateus, localizada no bairro das Oliveiras, desde 2011. A educadora afirma ter realizado diversas atividades extracurriculares, usando a expressão de que sempre “vestiu a camisa” da escola.

A perseguição, segundo ela, vem da diretora E. F. S. e teve início antes da pandemia, em 2019, com acusações sem provas e registradas em atas, que, conforme a educadora, “poderiam ter sido resolvidas com o diálogo". 

O estopim teria ocorrido em 2020, no começo das aulas remotas, quando a professora teria apresentado dificuldades em se adaptar ao ensino remoto. Depois de vários atritos, a direção da escola alegou ter recebido diversas reclamações de pais e responsáveis que afirmavam que a professora não fornecia atenção necessária para os alunos. Com o imbróglio da situação, a professora foi demitida no último dia 14.

Ensino remoto

Em entrevista exclusiva ao Agora, a professora afirmou que tentou se adaptar ao máximo à chegada do ensino remoto.

— Não foram levadas em conta as dificuldades que os servidores e as famílias encontraram até que tudo se normalizasse. Sempre acreditei que estava no caminho certo. Buscava sempre cursos, pesquisas, ajudas de pessoas que melhor entendem, no intuito de aperfeiçoar — ressalta a professora.

Reclamações

À reportagem, ela também afirma que nunca ficou sabendo sobre as reclamações dos pais, já que os e-mails que a escola afirmava ter recebido nunca eram mostrados.

 — A direção e supervisão atual declara já há alguns meses que pais têm enviado e-mails à escola e à Superintendência para relatar grosserias ou falta de atendimento feitas por mim. No entanto, todas as vezes que pedia que me mostrassem tais e-mails ou que relatasse o nome destes pais, estes não me foram apresentados para que eu pudesse esclarecer os fatos — explicou.

A professora também afirma que tinha bom relacionamento com os alunos. Segundo ela, todos da turma participaram de um abaixo-assinado pedindo a volta da educadora, bem como enviaram mensagens nas reuniões remotas perguntando onde ela estava. 

 Escola

O Agora procurou representantes da Escola Estadual Vicente Mateus a fim de saber a versão da instituição. E. F. S., diretora da escola, não estava presente no local e não foi encontrada para dar entrevista. Uma funcionária da instituição, que, com medo das consequências, prefere não se identificar, disse que o processo de demissão foi feito com legalidade.

— O processo foi feito dentro da legislação. As reuniões do colegiado, que contam com a presença de pais, funcionários e alunos, decidiram pela saída após inúmeras reclamações de responsáveis dos alunos. Foram dadas muitas chances. Nada aconteceu debaixo dos panos ou de maneira arbitrária — disse.

A servidora também relata que as reclamações dos pais eram constantes e diziam, na maioria das vezes, que a professora não fornecia devida atenção aos alunos. 

— Foram várias reclamações. Com o ensino on-line, os pais se tornaram mais presentes e relataram não estarem gostando da postura da professora diante dos alunos. Faltava atenção da servidora, segundo eles. Todo o processo está documentado e foi feito on-line — explicou.

Próximos passos

A professora afirma que está entrando com uma ação judicial contra a diretora e a escola. Além disso, deseja conversar com a superintendente estadual de ensino, Luiza Amélia Coimbra, para, segundo ela, apresentar suas “argumentações a fim de sanar qualquer dúvida diante dos fatos apontados e provas das mesmas''.

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