Primeira-dama do teatro de Divinópolis faz 90 anos

 

 

José Carlos de Oliveira

O teatro de Divinópolis viveu momentos de brilho e glamour nas últimas décadas, com inúmeros personagens, empreendedores e inspiradores como Lindolfo Fagundes e Osvaldo André de Mello, que respiravam e ainda respiram a arte cênica, usando todas as energias para levar brilho aos palcos.

Mas nenhuma outra, em tempo algum, valorizou e engrandeceu tanto o teatro como Irene Silva. Ela é a própria personificação da arte na cidade. Falar de teatro no Centro-Oeste mineiro sem citar Irene Silva é humanamente impossível. Precursora de uma época, abriu caminho para que outras se aventurassem nos palcos da vida.

90 anos de vida

Nascida em 21 de setembro de 1927, Irene Silva completou 90 anos ao lado dos filhos, genros, netos e bisnetos, com o frescor de muitos amanhãs, mas acima de tudo convicta de que ainda terá mais lindos capítulos para escrever em sua história.

Se com apenas 12 anos de idade, ela decidiu enfrentar a sociedade machista da época para viver seus sonhos, hoje ela enfrenta o tempo sem medo do futuro, sabendo que não importa o que vier nos amanhãs, porque seu legado é imortal.

Dedicada ao ensino

Diretora da Escola Estadual Miguel Couto e professora de português, Irene Silva caminhou ao lado da irmã Martha Eugênia. Juntas, transformaram o Colégio Frei Orlando em um dos melhores estabelecimentos de ensino da época. Por ali passaram homens ilustres, empresários, políticos, que escreveram e ainda escrevem a história da cidade e de Minas Gerais. As duas, juntamente com as outras irmãs Geni Euphênia e Odete, foram muito além do seu tempo e viveram todas as glórias da sociedade.

“Primeira Dama do Teatro”

Se hoje Divinópolis ainda mantém vivo o sonho do teatro, foi porque aqui viveu e ainda vive uma mulher chamada Irene Silva. Em sua ousadia para se tornar atriz de teatro, ela não se contentou em ser apenas mais uma, tinha que ser a melhor. E a carinhosa alcunha de ‘Primeira Dama do Teatro de Divinópolis’, lhe cai muito bem, veste-a dos pés à cabeça. Porque nunca houve e nem haverá, em tempo algum, por estas bandas, alguém como ela. Uma atriz sem igual, que encarnava seus papéis de corpo e alma, vivendo-os como se fossem parte integrante de seu próprio espírito.

Hoje, poucos são os seus espectadores e colegas de cena da época de ouro do teatro de Divinópolis ainda vivo, mas todos, absolutamente todos os que a viram atuar, têm uma palavra de carinho, uma lembrança por menor que seja, do que era sua presença cênica. Irene Silva era uma atriz completa, que levava a plateia a viver as cenas como se reais fossem.

Carinho da família 

Vivendo hoje em seu apartamento na avenida Paraná, ela segue encantando a todos com seus modos simples de ser e viver. Cercada pelo carinho das filhas Maria Luiza, Marília, Andrea e Piedade, do filho André Luiz, dos genros, dos netos Daniel, Sérgio Júnior, Alexandre, Marcela, Thais, Fernanda, Lucas, Clara e Matheus, dos bisnetos Rafael, Júlia, Alice, Bernardo e Arthur, dos sobrinhos e sobrinhas, Irene Silva ainda tem muito a passar e ensinar a todos que têm o privilégio de conviver com ela.

Que todas as plateias de teatro da Cidade do Divino se levantem agora, e de pé, aplaudam esta única e grande mulher - Irene Silva, a Primeira Dama do Teatro de Divinópolis.

 - O que é teatro para a Senhora?

É uma maneira de abrir os olhos das pessoas para os problemas da vida. É preocupar as pessoas, mostrando a elas a realidade de uma maneira bem suave, jocosa... Na parte social, também abordando certos aspectos da política, o teatro é muito importante. E a plateia faz parte do teatro, ela vive as mesmas coisas que os atores estão vivendo no palco. É um encontro, uma boa oportunidade de encontrar as pessoas, de pôr a nossa vida em dia, não é isso? A gente aprende demais, porque a vida é um aprendizado. Teatro é vida. Acho a arte cênica, na minha maneira de sentir, maravilhosa. Eu me realizo muito, me sinto plenamente realizada quando estou no palco.

(Irene Silva, em entrevista nos anos 90, em palavras que servem ainda hoje para retratá-la hoje – a mulher que nasceu para ser e viver como atriz)

Homenagem a Irene Silva 

A história de Divinópolis se confunde com a própria história de seus principais personagens. Pessoas brilhantes, cada uma em seu tempo e no seu modo de ser e pensar, aqui nasceram, viveram e ainda vivem, construindo e engrandecendo o nome da cidade.

Se Divinópolis é hoje uma cidade universitária, que pensa e vive o amanhã, é porque personagens que por aqui passaram a ajudaram a ser assim: uma cidade que olha sim para o amanhã, mas sem nunca abrir mão de suas raízes e de valorizar o seu passado.

Com orgulho daqueles que a tornaram o que é hoje, Divinópolis segue seu curso, construindo um futuro cada vez mais promissor para seus filhos e netos. A cidade vive o moderno, mas sem se descuidar e nem desmerecer o seu passado.

Se hoje Divinópolis tem uma história a contar e novos capítulos a escrever, é porque pessoas brilhantes a fizeram ser assim e a tornaram no que é: uma cidade que não tem medo de antever seu próprio futuro.

Na cultura, Divinópolis escreveu lindos capítulos em sua história. Viu nascer verdadeiras lendas, que levaram e ainda levam seu nome a todos os cantos do Brasil. Pode-se citar vários, mas não é chegado o momento. Que desculpem os nossos heróis anônimos, ou mesmo seus familiares e amigos que aqui ainda vivem, mas hoje a atenção está toda voltada apenas para uma pessoa em especial, a mulher inigualável, heroína que ousou escandalizar toda uma sociedade apenas para realizar seus sonhos. Ela quis se tornar uma atriz de teatro, numa época em que a mulher era criada apenas para ser esposa e mãe, sem direito a nenhum outro desejo que não estivesse restrito ao próprio lar. Seu nome Irene Silva.

No teatro havia espaço apenas para os homens, mas ela decidiu contrariar o óbvio e foi em busca do sonho de ser atriz.

Se hoje a mulher se empoderou e ganhou o mundo, disputando espaço com os homens em todas as áreas da vida, foi porque em épocas não muito distantes viveram mulheres como Dona Irene Silva, que ousaram sonhar com um amanhã melhor para todas com direito a vez e voz.

(Do sobrinho, José Carlos)

 

 

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