Preparando-se para o matrimônio

A experiência matrimonial se estende ao longo de um processo que começa desde que o homem e a mulher concebem a ideia do sexo, mesmo quando não tenha aparecido ainda, para um ou para outro, a dulcineia ou o pretendente que, por unanimidade do sentir, escolherão um dia com fins de aliança. O processo se inicia, pois, desde esse momento.

A natureza sensível tende, a partir dali, a configurar as demandas incipientes do instinto à ideia conjugal, associando aos atos da emoção passional as confidências do sentimento afetivo. A ideia conjugal prevalece no ser pela própria reação das forças criadoras e sustentadoras da espécie; por conseguinte, leva-se impresso no sangue o mandato supremo da perpetuidade.

No instante em que se decide a sorte do futuro sentimental do casal humano, instante que se pode produzir espontaneamente ou após um tempo mais ou menos breve de observação, contemplação e entusiasmo, é indubitável que uma comoção delicadamente sensível enleva as partes ao colocar definitivamente a imagem querida no lugar de honra dentro do coração. A partir dali, o amor seguirá o curso que cada um seja capaz de lhe imprimir.

O homem quer formar um lar e dedicar-se, com a espontaneidade que surge de seu coração, aos seres queridos que haverão de viver nele, isto é, sua esposa e filhos. Mas, para que isso seja uma realidade, o amor que a mulher tenha chegado a lhe inspirar, terá de predominar sempre em alto grau sobre sua condição sexual, propensa a excitar seus sentidos e desviá-lo desse objetivo. Assim sendo, jamais se empanará a imagem refletida no espelho de seu sentimento.

Como conservar através dos anos o encanto do amor puro, nobre, profundo, que a alma respira nos dias de namoro? Duas coisas são indispensáveis para que perdure esse amor fresco e puro que se sente pela amada, sem que se debilite jamais. A primeira é o afeto, que, menos impulsivo que a paixão, fixa-o, pois, se bem seja certo que a paixão infunde vida ao amor, o afeto é chamado a preservá-lo e conservá-lo. A outra, a segunda, tão indispensável quanto à primeira, é nossa dignificação aos olhos do ser querido. Esta só se consegue por meio dos esforços e das preocupações pelo bem-estar da família, e alcança sua máxima expressão quando nos elevamos, numa superação constante, acima da vulgaridade.

Sendo o amor uma força e também um poder, nenhuma circunstância poderia ser mais oportuna, para ensaiar sua virtude, do que a de empregá-lo na consagração definitiva de um lar que possa ser exemplo para lares. O amor é o grande elemento com que se suprem muitos claros produzidos no âmbito sensível pelas deficiências caracterológicas, e é também o que infunde confiança em nossas próprias forças, para esperarmos uma correspondência mais elevada às demandas, por vezes silenciosas, de nosso ser moral. É ali onde a tolerância cumpre seu alto e grande objetivo instrutivo.

A felicidade poderá ser uma conquista para o casal humano, desde que nem um nem outro se afastem do que se chama lei da sensatez. (Por Carlos Bernardo Gonzalez Pecotche – Raumsol - Trechos Extraído do Livro O Senhor de Sándara, pág. 208-209 e 213-215.)

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