Prazo de validade

O Corpo de Bombeiros encontrou ontem o corpo de mais uma vítima da tragédia de Brumadinho. As buscas, que começaram no dia do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em 25 de janeiro último, desde então não pararam. Na próxima segunda-feira, 25, a tragédia completa 10 meses. De acordo com o Corpo de Bombeiros, 254 pessoas morreram e outras 16 continuam desaparecidas. Hoje, quase 11 meses depois do acidente, as vítimas e suas famílias foram largadas no esquecimento. É como se simplesmente nada disso tivesse acontecido. O assunto só volta à tona quando se acha o corpo de uma vítima aqui e outro ali. A tragédia de Brumadinho, assim como a de Mariana, terminou em pizza. Nenhum culpado ficou preso, ninguém foi indenizado, e as famílias estão condenadas a viver com este trauma pelo resto de suas vidas.

Os pais, os irmãos, os filhos, os maridos e as esposas caíram no esquecimento também do povo. O mesmo povo que ficou enfurecido, brigou, pediu justiça nas redes sociais, e hoje se esqueceu da data que marcou esta tragédia. Assim como se esqueceu de 5 de novembro de 2015, quando a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, rompeu em Bento Rodrigues, distrito de Mariana. Quatro anos depois, as famílias ainda aguardam a construção de suas casas e também suas indenizações. Assim como as famílias de Brumadinho, as de Mariana foram esquecidas pelo povo e abandonadas pelo governo. Toda compaixão, que lotou ginásios de doações, simplesmente desapareceu. Toda solidariedade, que encheu os centros de atendimentos de voluntariados, sumiu. Virou lama!

Já são 300 dias de buscas, de dor, fé, superação, recomeço e impunidade. Há 300 dias Brumadinho se recupera de sua maior tragédia. Sozinha! Solitária! Esquecida! Afinal, o povo brasileiro é assim. A tragédia de hoje cai no esquecimento amanhã. A empatia, a solidariedade e a compaixão têm prazo de validade. Brumadinho será lembrada pelos telejornais apenas nas retrospectivas, e no dia 25 de janeiro do ano que vem, quando completar um ano da tragédia. Talvez a cidade seja lembrada por mais uns dois anos, mas já está condenada a cair no esquecimento total em 2022. É triste, mas esta é a realidade do Brasil. Somos o país que se revolta por instantes, mas logo depois segue a vida, como se nada tivesse acontecido. Logo depois de uma tragédia sem precedentes, o povo “segue o baile”, como se nenhuma barragem tivesse rompido.

Tornamo-nos um povo expert em nos adaptarmos a diversas situações, inclusive às tragédias, em sobrevivermos, e, com isso, transformamos o Brasil no país da impunidade. Afinal, tudo aceitamos. Revoltamo-nos por instantes, mas depois passa e fica por isso mesmo. Se Mariana e Brumadinho caíram no esquecimento é porque aceitamos. Esquecemos de cobrar. Esquecemos de exigir que os culpados fossem punidos. E as famílias? Ah, são brasileiras, experts em sobreviver a tragédias, das menores às maiores. Então, até a próxima tragédia, para nos revoltarmos, cobramos, mas tudo com prazo de validade, para depois cair no esquecimento, e o tempo levar tudo aquilo que causou dor para ficar na impunidade.

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