Por um bife

Raimundo Bechelaine 

Sábado passado, 5, a Igreja celebrou a festa de Santa Teresa de Calcutá, famosa pela dedicação aos empobrecidos. Anteontem, 8 de setembro, a Igreja celebrou a festa litúrgica do beato Frederico Ozanam, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo. Sediada na França, a entidade atua hoje em mais de cem países. Seu objetivo é congregar pessoas para o estudo de doutrina católica e a prática da caridade entre a população empobrecida. O Brasil, país natal de Santa Dulce dos Pobres, festejada em agosto, é onde a SSVP mais cresceu e atua.

Também anteontem, em torno das oito horas, um caminhão frigorífico carregado de carne tombou, em Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo. “Se caiu no chão, é do povo!” Assim gritavam entre o público que lá se juntou. A televisão mostrou homens e mulheres arriscando-se no pesado trânsito da rodovia, arrastando peças de carne. 

Mas a polícia logo chegou. Primeiro, a Polícia Rodoviária Federal. Depois, a Guarda Metropolitana. Mais tarde, o Batalhão de Ações Especiais da PM. A notícia espalhou-se e muita gente da região passou o resto do dia ali, olhando e esperando uma oportunidade. Muitos gritavam: “Libera a carne, só queremos comer um bife!”. No fim da manhã, a polícia lançou uma bomba de gás e spray de pimenta, na tentativa de dispersar os grupos. 

Um mecânico dizia: “A última vez que comemos carne, foi no Natal”. Uma senhora chegou com dois filhos moços. Perguntava: “O que eles vão fazer com essa carne? Deviam dar pra nós. Eu sei bem o que fazer com ela”. Outra mulher, desempregada, chegou às quatro da tarde, com dois homens, trazendo caixas de isopor. Dizia: “Tenho dois filhos para alimentar. Não preciso de muita coisa. Uma peça só dava pra gente”. Uma costureira indagava: “A polícia não tem mais o que fazer? Os verdadeiros bandidos ficam soltos, enquanto a população, que só quer comer, é tratada como bandida”. O cozinheiro de um restaurante informava que a carne certamente ainda seria aproveitada. Uns diziam que a seguradora havia liberado a carga e era a polícia que impedia. Entre tanta conversa e comentários, afinal não se distinguia entre fatos e boatos. Um rapaz avisava: “Só saio daqui quando  tirarem tudo. Talvez vai sobrar alguma coisa”.

Enfim, santos não faltam: Vicente de Paulo, Ozanam, Teresa de Calcutá, Dulce dos Pobres e tantos mais. Obras de caridade terão sempre o seu lugar e validade. Porém não serão elas a resolver o problema da miséria de bilhões de seres humanos. jorababech@gmail.com

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