Polícia detecta desvio de quase R$ 1 milhão na última gestão do Divinópolis Clube

Matheus Augusto

Dois anos. Esse foi o tempo necessário para concluir o inquérito sobre desvio de recursos do caixa do Divinópolis Clube em sua última gestão. O relatório produzido pela responsável pela Delegacia de Estelionato da Polícia Civil em Divinópolis, Adriene Lopes, contém seis volumes de 1.200 páginas cada, com notas fiscais, cheques e planilhas do caixa da instituição. Segundo a apuração da delegada, divulgada na última sexta-feira, cerca de R$ 1 milhão foi desviado para contas particulares do ex-presidente Simonides Quadros, que negou todas as acusações durante seu depoimento às autoridades, e de sua filha, que também negou ter conhecimento da movimentação financeira.

O inquérito, já concluído, foi encaminhado à Justiça, inclusive, solicitando o congelamento de parte dos bens, parte deles comprado com o dinheiro desviado, para futuro ressarcimento do clube.

Golpe

Conforme relata a delegada, Simonides ficou na presidência do clube por 12 anos, tendo iniciado sua gestão em 2006. Os documentos analisados, no entanto, são datados de 2009 em diante. O procedimento de fraude, segundo apurado, consistia na emissão de notas fiscais para serviços avulsos (como pedreiro, encanador etc.). As assinaturas eram falsificadas, sendo rubricadas pelo próprio Simonides, em nome de outras pessoas. A maioria desconhecia a ação, mas o ex-presidente teria oferecido dinheiro a determinadas pessoas para que assinassem a nota fiscal sem prestar o serviço.

— Nós concluímos que, de fato, houve o desvio de dinheiro do Divinópolis Clube. Saiu da conta do clube e foi parar nas contas particulares do ex-presidente e da filha dele — afirmou.

Segundo a delegada Adriene, as investigações começaram após uma auditoria solicitada pela atual gestão do clube detectar irregularidades nas contas do Divinópolis Clube.

— O início foi com a própria notícia do clube, que chegou aqui e falou das suspeitas de existência de fraudes. Com isso, nós iniciamos as investigações, baseadas em documentos, em análises contábeis, provas documentais e testemunhais vítimas que tiveram seus nomes usados como laranjas para passar o dinheiro por elas e ser creditado na conta do ex-presidente — explicou Adriene.

Sem direitos

O caso que mais chamou a atenção da delegada foi a de um catador de latinhas, impedido de retirar um benefício no Instituto de Nacional do Seguro Social (INSS) para sua filha, deficiente física, por, supostamente, ter renda acima de um salário mínimo. O homem trabalhava em uma siderúrgica como forneiro e, após um acidente, queimou a vista e se aposentou por invalidez.

— Uma das vítimas é um idoso, hoje está com 84 anos, que entrava no clube para catar latinhas. Ele tinha uma renda de um salário mínimo e era aposentado por invalidez. Com isso, ele catava latinhas para ajudar na renda familiar, só que o ex-presidente emitiu várias notas fiscais como se ele [idoso] prestasse serviços de pedreiro para o clube e emitiu cheques para o pagamento desses supostos serviços. Só que esses cheques foram depositados na conta do ex-presidente. Ele solicitou o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para sua filha, que é deficiente física. A renda da família é de um salário mínimo, porém o pedido foi indeferido [pelo INSS] porque apurou-se que a remuneração dele foi mais de R$ 100 mil de 2009 a 2012. Até hoje o pedido dele encontra-se na Justiça por causa dessa questão — relatou.

A expectativa da responsável pelo caso é de que o avanço das investigações ajudem a filha da vítima a receber o benefício ao qual tem direito.

— Pode ajudar. É uma prova documental que vai instruir o pedido na Justiça provando que ele nunca, de fato, recebeu esse valor. Ele nunca nem prestou os serviços — espera a delegada.

Versões

Em depoimento, conforme conta Adriene, a filha de Simonides negou ter conhecimento das movimentações financeiras feitas pelo pai.

— Existia uma conta em seu nome que era movimentada pelo pai. Ela negou ter movimentado essa conta e ter se beneficiado desses valores. Ela tem alguns bens em seu nome, como veículo e imóvel, mas o imóvel ela diz que foi presente do pai, na época em que ele era presidente do Divinópolis Clube — ressaltou.

Além disso, o ex-presidente negou todas as acusações.

Cúmplices

Sobre a responsabilidade judicial do crime, a delegada conta que, até o momento, apenas o ex-presidente do clube pode responder. Sobre a participação de outros membros da antiga administração, nenhuma evidência foi encontrada.

— Comprovadamente, documentalmente, nós não apuramos nenhum desvio de valores para outros membros da antiga gestão. O que nós identificamos foi uma negligência, uma omissão, por parte deles. Porque o clube reza que todas as transações feitas devem ser assinadas pelo presidente e pelo tesoureiro ou diretor financeiro. Eles assinavam e não tomavam conhecimento de nada, porque se tomassem conhecimento não teriam ocorrido os desvios — declarou.

Responsável por, junto com o presidente, assinar as transações, o tesoureiro da época é casado com a irmã do ex-presidente do clube. No entanto, a Polícia Civil não encontrou provas de que ele teria se beneficiado com os desvios.

Crimes

Ao todo, Simonides responderá pelos crimes de estelionato, falsidade ideológica, apropriação indébita e lavagem de dinheiro. No caso da apropriação indébita, o ex-presidente teria comprado materiais de construção em nome do clube, mas levado para sua casa. Os produtos foram apreendidos pela Polícia Civil e devolvidos à instituição.

Sobre uma prisão preventiva, a delegada Adriene Lopes disse não haver, no momento, necessidade para tal. Segundo Adriene, Simonides mora na cidade e não atrapalhou o andamento da investigação. Além disso, o fato não é considerado recente.

No que classificou como segundo fase, a responsável pelo caso espera analisar possíveis superfaturamentos de obras e shows realizados no clube durante a gestão de Simonides Quadros.

Expulsão

Após a divulgação do conteúdo da investigação sobre desvio milionário da gestão anterior do Divinópolis Clube, o PSDB deve expulsar o ex-presidente do clube, Simonides Quadros, filiado do partido. Em nota, a sigla repudiou a atitude do tucano.

— Prezados tucanos e tucanas, boa tarde. Lamentamos profundamente as denúncias amplamente divulgadas pela imprensa local em desfavor do sr. Simonides Quadros.
Informo a vocês que o assunto já está sendo acompanhado por mim e por integrantes da Comissão Executiva. Posso garantir a todos que agiremos com isenção, de forma justa, e cumpriremos rigorosamente o Estatuto Partidário. O contraditório é indispensável, mas se lamentavelmente as denúncias se comprovarem, nosso ninho não tem e não terá espaço para quem age em conflito com a lei — concluiu o partido.

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