Poeta, padre e revolucionário

Raimundo Bechelaine

Alguns nomes são, para sempre, lembrados na marcha progressista da história. Outros ficam na lista dos que lutam pelo atraso, tentando inutilmente impedir os avanços.

Morreu domingo passado, em Manágua, capital da Nicarágua, um homem polivalente. Nascido em 1925, de família rica e influente, o sacerdote, poeta e político nicaraguense Ernesto Cardenal Martinez tinha completado 95 anos de idade em janeiro. Tendo compartilhado com o mítico Che Guevara o nome de batismo, comungou também com ele nas convicções revolucionárias e socialistas.

Na encíclica Mater et Magistra, em maio de 1961, o papa João XXIII escreveu: “A socialização é um dos aspectos característicos da nossa época”. Na verdade, é mais do que isto. O processo de socialização da vida humana é constante, acentua-se sempre mais. Basta lançar um olhar sobre a história das civilizações. O processo avança, às vezes, através de uma evolução pacífica dos costumes e das leis, outras vezes através das pressões e reivindicações ou das revoluções. Pode ser apressado ou retardado, porém jamais bloqueado. Resultará na convivência humana em ambiente político e econômico completamente socializado, fraternizado. Os direitos e deveres, a educação e a saúde, a propriedade dos meios de produção e o capital, as oportunidades, enfim toda a existência, tudo resultará socializado. Ou seja, a socialização é um dos fins para onde caminha a humanidade.

Os homens e mulheres, que se empenham por alguma forma de socialismo, inserem-se nessa marcha do progresso histórico. Ernesto Cardenal é um destes. Foi uma das lideranças carismáticas da Revolução Sandinista de 1979. Tornou-se ministro das relações exteriores no governo revolucionário. Por isso, foi suspenso do exercício do sacerdócio pelo papa João Paulo II, conservador e aliado ao presidente norte-americano Ronald Reagan no combate à teologia da libertação.

Punido igualmente foi seu irmão, o jesuíta padre Fernando Cardenal Martinez, ministro da Educação. Na época, este deu aos seus superiores uma resposta antológica: “É possível que eu me equivoque, sendo jesuíta e ministro, mas deixem que eu me equivoque em favor dos pobres, porque a Igreja se equivocou durante séculos em favor dos ricos”. O irmão Ernesto inspirava-se também, certamente, no mesmo pensamento.

Ernesto Cardenal deixa reconhecida obra literária. Recebeu vários prêmios internacionais. Recentemente, o papa Francisco readmitiu os irmãos Martinez na vida religiosa e sacerdotal. jorababech@gmail.com

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