Poema de sete faces

Rotativa - Maria Cândida

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

De Alguma poesia (1930)

Carlos Drummond de Andrade

De Natal a Carnaval

Duas datas, talvez as mais importantes do calendário, também rimam e não são a solução: Natal e Carnaval.

Mas é uma data que nem a covid-19 acaba com ela: Natal...

É o Criador, arrependido de sua criação, tenta, mais uma vez, passá-la a limpo. Sem muito sucesso...

A criatura criada por Ele se rebelou logo no início de sua descida à terra.

Logo Ele confessou sua incompletude, e remendou:

Quem sabe se não é a falta de uma companheira? A solidão não é boa conselheira nem companheira.

 Daí que, bem intencionado, Ele criou a Eva, para alegrar seus dias e mais ainda as suas noites...

Mas valeu pouco: o homem continuou até hoje atrás de outro rabo de saia para fazê-lo mais feliz. E continua procurando... Daí que o Papai dos céus apelou. Mandou os capetinhas mais talentosos criarem o Carnaval, que rimava com Natal e podia ser a solução. Rima, mas não é solução e ainda às vezes ataca de mais solidão... Saudade do Paraíso... Daí que enviou uns calços para ajudar. Ajuda daqui, peleja dali… Nada era solução e até ainda aumentava a aflição e solidão.

Assim foi que Ele teve uma inspiração: chamou o Nonô com sua animação, a Chiquinha que requebrava em plena avenida. Até que teve a maior inspiração: convocou o Nelson e o Nelson Pelegrino compareceu e nada de éternamente e abafou com sua elegância e dignidade.

 E seguidores e fiéis não faltaram… Nelson era o rei do Carnaval, o eterno Rei Momo de Divinópolis!...

Hoje, carnaval em Divinópolis é só saudade!!!

 

 

 

 

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