Perigo à vista

 

Se algum bandido está pensando que um general de quatro estrelas está acostumado a levar desaforo para casa, com toda a certeza perdeu o senso da razão. É certo que todos os oficiais, graduados ou não, das Forças Armadas são educados na acepção do termo. Receberam uma educação forte e esmerada durante o curso que fizeram, dentro dos quartéis nas atividades normais, nos diversos cursos profissionalizantes que a carreira exige e no dia a dia, no trato com superiores e subordinados.

É tão normal que levem uma vida mais de clausura, pois trabalham em vários lugares do país e do exterior durante toda a carreira, que não é difícil encontrar um que ainda não tenha adquirido a sua própria casa. Agora, ao final da carreira, é que se começa a pensar no assunto. Trata-se de um homem experiente e calejado, além de altamente preparado para qualquer situação. A profissão exige dele tudo, inclusive a ausência familiar.

Hoje, quando se vê um general assumir uma função dificílima como a atual do Rio de Janeiro, é porque não existe outra fórmula capaz de encarar a situação. Atualmente no Rio, ou se conserta ou se conserta, não existe outra saída e, para isso, não existe civil com colhões suficientemente fortes para enfrentar o desafio. A primeira prova deste desafio aconteceu pouco mais de duas horas depois que o Exército tirou as barreiras colocadas nas ruas. Ameaçadoramente, em pelo menos uma das ruas, os bandidos impediram o trânsito, dando o sinal de que estavam por ali e que o local “está dominado”.

Até ontem à noite, não se sabe o que o general comandante e sua equipe iriam fazer nem se os malandros iriam bloquear mais ruas. É certo que algo vai acontecer, pois, caso contrário, todo o aparato montado e a esperança do carioca nele terá ido por água abaixo.

O silêncio, a falta de uma resposta rápida deve estar dentro do planejamento estratégico, onde tudo é feito de forma metódica para se errar menos. Eles (os bandidos) estão lançando suas iscas para ver no que irá dar. Sabem que a situação está piorando e que, cada vez mais, o cerco está sendo fechado sem qualquer alarde. É assim a lei da selva, a vigília entre caça e caçador.

Enquanto o núcleo inteligente vai tomando atitudes coerentes, o que já foi decidido está em execução e os bandidos estão ficando estrangulados pela apreensão de armas e drogas. Seria incomum se não houvesse uma ação por parte de quem não tem nada ou quase nada a perder, a não ser a própria vida que poucos dão valor, já que acreditam mais na morte. Só que existe o peso familiar, e todos eles, no jargão popular, morrem de medo que lhes falte algo ou que venham a sofrer consequências.

As próximas horas serão fatais. Ou a bandidagem ganha o jogo ou terão de correr muito para não ser alcançados. O desaforo deve ter doído muito, pois o acontecido tem cheiro de desmoralização, daí o perigo dos próximos passos.

 

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