Pequenos negócios na Alemanha

Marcos Fábio 

Se você é daqueles que está acostumado a desdenhar o que tem no Brasil, sempre achando que fora do país as coisas são melhores, principalmente em termos de legislação trabalhista, penso que essa história servirá muito para você.

Estou em Düsseldorf, na Alemanha, participando da Euroshop 2020. Em nossa programação, além de dias intensos na feira – dividida em 17 pavilhões, 2,4 mil expositores e mais de 400 palestras –, temos as visitas técnicas.

Hoje quero relatar a minha satisfação em ter visitado uma pequena padaria, empreendida e administrada pelo casal João e Maria: a padaria Hércules.

João é um padeiro que esteve no Brasil trabalhando em uma favela de forma voluntária e lá conheceu Maria, que também atuava no voluntariado.

Apaixonaram-se e resolveram vir para a Alemanha. Abriram o que aqui chamamos de padaria, mas que no Brasil seria muito mais uma loja de pães especiais, do que uma padaria.

A padaria Hércules é uma loja com mais de 200 tipos de pães, onde não há área para venda de produtos de mercearia, muito menos uma lanchonete, como estamos acostumados a ver aí no Brasil.

O casal tem feito sucesso por aqui, saindo em revistas e na principal emissora de TV de Düsseldorf.

O segredo está em um respeito profundo a toda a cadeia produtiva, trabalhando somente com fornecedores da região, que utilizam formas sustentáveis de produção. Desde o trigo até o papel de pão, há uma preocupação em gerar renda local, dando prioridade para os fornecedores da região e, sobretudo, uma enorme preocupação em trabalhar com pessoas preocupadas com a sustentabilidade do planeta.

Fomos recebidos nesta terça-feira, 18, pelo casal que nos deu uma aula de como empreender um pequeno negócio na Alemanha.

Os desafios da gestão de um pequeno negócio aqui são os mesmos do Brasil, passando por situações que vão desde a necessidade de um bom controle financeiro, de uma correta gestão de custos, e chegando ao melhor preço do produto.

Para isso, se valem de um sistema (software de gestão) que está parte implantado e parte em implantação, da mesma forma como as empresas aí no Brasil.

Vi vários atendimentos sem que o cliente fosse cadastrado e, quando perguntei a ele se já pensou em cadastrar o seus clientes, ele respondeu: “estamos implantando isso neste exato momento”. Seria isso uma mera coincidência ou uma realidade dos pequenos negócios em todo o mundo?

Do ponto de vista do atendimento, Maria é clara dizendo que o Brasil dá um show de atendimento em relação à Alemanha, pelo fato de que, por aqui, as empresas não precisam de vender. Elas são compradas, nos diz Maria de forma bem enfática. Ela ainda complementa: “o alemão quer o produto, entra na loja, paga por ele e vai embora”.

Isso foi uma verdade constatada por mim. Não é uma cultura da Alemanha esperar por um excelente atendimento, apesar de Maria, com seu jeito brasileiro de atender e dona de uma simpatia de dar inveja, estar mudando essa cultura por aqui. Ela acredita tanto nisso que escreveu na porta que divide a área de produção da área de atendimento um lembrete para que seus funcionários, ao entrar na área de atendimento, adotem o seu estilo de atender: “a partir daqui, anda devagar e ri (sorria)”.

Do ponto de vista dos custos de operação de uma empresa, o casal nos mostrou o quanto é caro manter um funcionário por aqui e o quanto é difícil e caro demiti-lo. Se ele tiver muito tempo de casa e idade avançada então, esqueça. Isso é quase impossível, pois, além de caro, o governo não tem interesse em ter uma pessoa de idade avançada na fila do desemprego, afinal de contas, essa conta ficará para ele.

As férias são remuneradas, o adicional de 1/3 aqui se chama incentivo e não é obrigatório, mas pagá-lo ajuda a atrair pessoas boas. O piso salarial gira em torno de € 2.000,00 e mais cerca de 40% de impostos sobre a folha.

Aqui há uma diferença: não há a questão da isonomia, ou seja, se você pagar o piso mínimo, você pode reconhecer um bom funcionário pagando a mais, sem sofrer as consequências disso. Premiações podem ser pagas sem que se tornem “direito adquirido”, desde que não tenha recorrência mensal.

Por outro lado, aqui, se o funcionário fica doente, por qualquer motivo, ele tem atestado para se afastar do trabalho. Ir ao médico e dizer que está doente é o bastante para se conseguir um atestado. Segundo Maria, qualquer resfriado por aqui é motivo para eles se afastarem.

A mão de obra não é lá essas coisas, afinal de contas, conforme nos conta Maria, com € 2.000,00 uma pessoa vive muito bem por aqui, então para que se esforçar muito se você já tem um salário garantido com piso mínimo? Num país onde quase tudo funciona bem, com essa remuneração você vive, come, bebe e se diverte, afinal de contas, escola boa até o ensino médio, a mobilidade urbana e a segurança estão garantidas.

Por fim, Maria nos mostra uma indignação muito conhecida aí no Brasil: “o funcionário é visto como a parte mais fraca e as leis são sempre em favor deles”! Qualquer semelhança com a nossa CLT é mera coincidência, ou talvez não, já que a base do direito brasileiro tem grande influência do direito alemão.

Os impostos são muito altos (a mordida do Leão por aqui pode chegar a 42% da sua renda e a % sobre a venda chega aos 20%), mas são bem aplicados e você sabe para onde o seu dinheiro está indo.

De tudo que conversei com esta família empreendedora, a conclusão que cheguei é um tanto quanto óbvia: tanto aqui quanto aí, a boa gestão cabe em todo lugar.

E foi isso que vi o casal João e Maria buscar, investindo em sistema, buscando apoio de consultoria, trabalhando a partir de metas e treinando seus funcionários para construir uma cultura que tenha a ver com o propósito deles.

As mãos de João nos mostram o quanto ele precisa literalmente pôr a mão na massa, enquanto Maria, mãe de três, sendo 2 gêmeos, precisa de vez em quando trazê-los para a loja, por não ter ninguém para ficar com eles, mas, também, para já irem aprendendo. É a sucessão na prática, muito parecido com o que temos aí no Brasil.

Enfim, caros leitores, as dores de um pequeno empreendedor por aqui são bem parecidas com as de um pequeno empreendedor aí no Brasil.

Tanto aqui como aí nas terras tupiniquins, o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho continua a ser no dicionário!

Bom fim de semana a todos!

 

 

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