Pastor deixa prisão e volta a celebrar cultos

Jesiel é acusado de estelionato, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica; PC ouve mais vítimas

Matheus Augusto

Preso desde 8 de outubro, o pastor Jesiel Júnior Costa de Oliveira deixou o Floramar na madrugada do último domingo, 24. Imagens que circulam nas redes sociais mostram que Jesiel voltou ontem a ministrar os cultos na Igreja Batista Filadélfia, no bairro Porto Velho. Três inquéritos da Polícia Civil (PC) já foram concluídos e apontam o pastor como responsável pelos crimes de estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. No entanto, após a elaboração dos documentos com as provas, outras vítimas se apresentaram na delegacia e registraram novos casos contra ele.

Caso

Durante a prisão, os agentes da PC também estiveram na casa do pastor, onde apreenderam provas dos crimes. Conforme informou a responsável pela Delegacia de Estelionato, Adriene Lopes, foram localizados dinheiro, incluindo euros e bolívar venezuelano, bem como computadores, notebooks e celulares.

— Foram apreendidas várias máquinas de cartão de crédito e débito na residência e na empresa dele, todas registradas em nome citada igreja, o que configura lavagem de capitais, haja vista a imunidade tributária das entidades religiosas — explicou a Polícia Civil.

Segundo as investigações, Jesiel usava as contas da igreja, não apenas em Divinópolis, mas também em Belo Horizonte e na Venezuela, para fazer a lavagem de dinheiro.

— O dinheiro entra como receita da igreja, que é imune de tributação, e não como receita tributável da empresa particular dele, ocorrendo concomitantemente sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, estelionato e falsidade ideológica — detalhou a PC.

O pastor também é dono de uma empresa que recorre de multas de trânsito. As supostas vítimas que se apresentaram na delegacia relataram que Jesiel oferecia a elas a abertura de uma franquia do empreendimento, pois, segundo argumentava, era lucro certo.

— Todas tiveram prejuízo financeiro pagando ao investigado valores em dinheiro e/ou bens móveis/imóveis. Algumas venderam carros, imóveis, outros investiram todas as economias que possuíam e, posteriormente, vieram a tomar conhecimento que foram ludibriadas, uma vez que nada fora formalizado, nenhum contrato social, nem alteração contratual da empresa dele, tampouco registro de franqueador ele possui — contou a PC após a prisão.

Além da lavagem de dinheiro e o estelionato, Jesiel é apontado, em um dos inquéritos, por ter cometido o crime de falsidade ideológica, pois, mesmo sem autorização, se apresentava como advogado.

— O investigado se passava por advogado, mas não está inscrito nos quadros de advogados e/ou estagiários — informou.

Vítimas

Em um dos relatos ao Agora, uma das vítimas estima ter sofrido um prejuízo de, aproximadamente, R$ 250 mil. Por cinco meses, ela manteve três franquias da empresa vendida pelo pastor abertas.

— A gente adquiria a filial, instalava, treinava os funcionários e a central entrava com o recurso no Detran. Ele me falou que eu iria apenas abordar o cliente, passar os dados e eles iriam recorrer, sempre repassando os 20%. Apenas de comissão de um cliente eu cheguei a passar para ele R$ 3 mil — explicou.

No entanto, o serviço não era feito pela matriz.

— Os clientes começaram a reclamar que o serviço não estava sendo feito. Quando eu vim até Divinópolis verificar, descobri que era fraude, que a central não existia e a empresa não era legalizada no mercado, sem registro — alega a vítima.

“Mãe”

Outra vítima dizia viver uma relação tóxica com o pastor. Segundo ela, Jesiel abusava de sua boa vontade e proximidade que ela tinha com a família dele. Ela contou, inclusive, que chegou a cuidar da mãe do pastor quando ficou doente.

— Ele me levou para a igreja de novo porque eu seria o braço direito dele, que eu era como se fosse a mãe dele, tanto é que me chamava assim e confiava em mim. Ele falava que eu gostava mais da minha filha do que dele, que mãe não fazia com o filho certas coisas que ele [Jesiel] quisesse. Ele chegava, às vezes, e dizia: “Dá isso aqui para mim, aposto que se fosse para sua filha você daria”. Ele me pressionava bastante — explicou.

Uma das franquias recebeu o nome da vítima após ela transferir um terreno para o pastor e, como o valor do aluguel não era pago por Jesiel, ela foi intimada judicialmente. Na época, ela contou ter ficado internada por um mês e recebido um diagnóstico de depressão grave, e disse temer pela sua vida.

— Ele está preso, mas e quem está de fora? Estou morrendo de medo, pelos meus filhos. Porque eu não sei com quem ele mexe. Até então, pela pessoa que conheci, nunca imaginava que um dia eu ia ver tanta barbárie — relatou.

A Polícia Civil continua ouvindo supostas vítimas do pastor. Morador de uma cidade próxima, uma pessoa prestou depoimento ontem.

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