Passando a limpo

É sexta-feira. O trânsito está intenso, o dia foi intenso e a semana idem. Enquanto espero em mais uma das inúmeras filas da vida, observo as pessoas apressadas para lá e para cá.

Uns correm para chegar a tempo. Outros correm para ganhar tempo. Correr, que já era um verbo transitivo direto, indireto e intransitivo ao mesmo tempo, virou imperativo. Corra! Afinal, todos correm. Todos têm pressa.

O fato é que a lista de afazeres aumentou e o dia continua com as mesmas 24 horas de sempre. E agora?

Não estava previsto que teríamos que dar conta de acompanhar todos os grupos de WhatsApp, as redes sociais, as novelas, os telejornais, as atividades dos filhos ou dos netos. Acrescente à lista as consultas aos inúmeros especialistas da medicina, fazer atividade física todos os dias, as palestras e workshops inerentes à carreira que temos que assistir, beber dois litros de água, passar filtro solar e mastigar 20 vezes cada garfada de comida???!!! Isso tudo foi acrescentado às nossas 24 horas sem percebermos. E aceitamos sem nos dar conta que tudo isso leva tempo.

E sobrou para quem? Sobrou para os filhos, para os pais, para os companheiros... Sobrou para quem está próximo, que perdeu a companhia. Não somos mais companhia de ninguém, a não ser de nós mesmos!!!

E na tentativa absurda de querer fazer duas, três coisas de uma vez, estamos fazendo tudo errado. O arroz queima, o leite derrama, o ônibus passa e os diálogos se resumem em respostas silábicas e desatentas.

Estamos desavergonhadamente desatentos. Não prestamos atenção nem em nós mesmos e fingimos que prestamos atenção aos que nos rodeiam. Perguntamos “como vai?”, mas não estamos interessados nos detalhes da resposta. Reclamamos quando não somos ouvidos, mas não temos ouvidos para ninguém. 

Estamos vivendo tudo no rascunho, acreditando que um dia vamos passar tudo a limpo e fazer direito. Ilusão! Não vai haver tempo para isso! O que está feito, está feito!

Fizemos mal feito, fizemos pouco, fizemos pelas metades, fizemos o básico, fizemos para “inglês ver”. E quanto mais coisas fazemos, mais deixamos outras pelo caminho.

Deixados pelo caminho estão pessoas queridas, estão as conversas gostosas, as discussões inteligentes, as risadas dos momentos bobos, os choros de emoção, as músicas boas de ouvir, os livros e os abraços calorosos que cansaram de esperar... Será que dá tempo de voltar?

leilarodrigues.com.br

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