Parto anormal: violência obstétrica vitima mulheres

Ana Laura Corrêa

A fotografia em que aparece sorrindo ao lado do filho, recém-nascido, ainda na sala de parto, Bruna Faria, de 27 anos, não tirou.

Ela afirma que foi vítima da violência obstétrica praticada por um médico durante o parto normal de seu segundo filho em julho de 2016, em um hospital de Divinópolis.

— O médico forçou o parto normal. Eu não tinha dilatação, mas eles me abriram com tesoura, emendaram um buraco no outro, sem anestesia, para o Davi poder sair. Eu pedi, pelo amor de Deus, para ser um parto cesárea, mas o médico não quis fazer. Como eu não tinha dilatação, espremeram a cabeça do meu filho. Ele precisou de choque elétrico para ser reanimado. Depois, foi para o CTI e ficou muitos dias, foi uma angústia. Os médicos diziam que ele não iria sobreviver e, se sobrevivesse, iria ficar com sequelas neurológicas — contou a mãe.

Davi, hoje com quase 2 anos, foi diagnosticado no ano passado com paralisia cerebral.

— Quando recebi o diagnóstico, foi um choque muito grande e fui para o Sersan. Hoje, meu filho faz fisioterapia três vezes por semana, acompanhamento com neurologista e teve a parte direita do coração afetada. A coordenação motora e a fala também foram afetadas e ele tem alergia a lactose, glúten e açúcar — relatou.

De acordo com Bruna, um obstetra já havia dito que iria fazer o parto. No entanto, seu plantão chegou ao fim e ele não poderia atendê-la no horário de trabalho de outro médico, mas deixou prescrita a cesárea.

— O médico que fez o parto, no entanto, disse que eu tinha perfil para normal. Porém, três anos antes, meu primeiro filho nasceu por cesárea, justamente porque eu não tinha dilatação. O obstetra forçou muito. Eu não ganhei o meu filho com os dez centímetros de dilatação necessários. A outra médica, ou enfermeira, que também estava lá, me abriu com a mão e, por fora, foi com a tesoura. Foi um parto muito sofrido, difícil, demorou muito para o meu filho sair. Ele não saiu roxo, saiu branco, morto já. Só voltou com o choque. No CTI, por conta do choque, teve parada cardíaca, convulsão. Ficou congelado três dias para preservar o cérebro. Eu chegava lá e a mão dele estava preta de tanto frio e ele pelado. Meu filho é um guerreiro, sofreu demais. Respirava por meio de tubo mecânico e sobreviveu, conseguiu sair dessa, porém teve sequelas, que acabam com uma família inteira. E o médico, que tirou a minha alegria de viver, nem foi ver como o meu filho estava, falou que isso é normal de acontecer — contou a mãe.

Lei

Entrou em vigor, em 22 de dezembro do ano passado, a lei municipal nº 8.394/2017. A medida dispõe sobre a implantação de medidas de informação e proteção contra a violência obstétrica. Além disso, a norma trata da implantação da Cartilha da Saúde e dos Direitos da Mulher, da Gestante e da Parturiente. A lei também normatiza a presença de doulas e institui o dia 13 de setembro como o Dia Municipal de Conscientização da Saúde da Mulher.

Entre as situações proibidas pela lei municipal, estão, por exemplo, fazer a gestante acreditar que precisa de uma cesariana quando a operação não se faz necessária, a não-aplicação de anestesia, quando a parturiente solicitar, e também o tratamento agressivo à gestante.

Casos

Apesar da lei em vigor, a violência obstétrica continua a acontecer em Divinópolis.

— No dia 7 de março deste ano, fui internada no Hospital São João de Deus com 41 semanas de gravidez. Eles tentaram uma indução de parto em mim porque eu não tinha dilatação. Ficamos na sala de pré-parto e o processo, no começo, estava correndo bem. O primeiro médico foi muito educado comigo.  A outra médica, no entanto, já chegou bem grossa. Eu queria um parto normal. Porém, no outro dia, às seis horas da manhã, a enfermeira tentou ouvir o coração do bebê, mas não conseguiu, porque as contrações estavam fortes, e chamou a médica, que disse que a cirurgia seria necessária. Depois, já na amamentação, tive dificuldades. Meu marido chamou uma enfermeira que, com falta de amor ao que faz, me deu algumas dicas — contou uma mulher de 21 anos, que passou pela situação ao ter seu primeiro filho e pediu para não ter o nome divulgado.

Simpósio

Para evitar que casos do tipo continuem a acontecer, será realizado nesta sexta-feira, 20, o 1º Simpósio Regional de Assistência ao Parto.

— O simpósio vem discutir o que é a violência obstétrica, e como passar dela para as boas práticas — explicou uma das organizadoras do evento, Rebeca Charchar.

O evento ocorrerá entre 14h e 19h, no Senac, em Divinópolis. A médica da família e comunidade, doula e preceptora de residência médica, Júlia Rocha, o obstetra e preceptor da residência em obstetrícia, Edson Souza Borges, e também a bacharel em direito, especialista em direitos humanos e violência obstétrica, Shayane Melo, participarão do simpósio.

Segundo Rebeca, é necessário falar para todas as mulheres sobre a existência da lei 8.394/2017.

É importante para que elas saibam que têm direito a uma boa experiência de parto. Isso não é uma gentileza, é uma obrigação — finalizou Rebeca.

 

 

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