Para quem ainda pretende mudar

 

Naquele dia, ela acordou com vontade de fazer diferente. Experimentou não arrumar a cama que dormiu. Olhou para os lençóis em desalinho e quis deixá-los ali, incertos.

Também experimentou não domar os cabelos como de costume. E deixou o precioso creme que doma cabelos desvairados e rebeldes quieto no armário. Saiu com os desvairados e rebeldes tal qual sempre foram.

A caminho do trabalho, comprou flores para si mesma. Tomou café na padaria, no balcão, e entrou no meio dos assuntos que rolavam ao seu redor. Política, saúde e outras amenidades. Aprendeu receita de chá, aprendeu sobre a bolsa de valores e sobre o incêndio da Amazônia. Seguiu feliz. Passou o dia como aprendiz.

A esta altura, ela não queria muito da vida. Apenas viver. Já achara o seu lugar, muito tempo atrás. Agora ela queria somente fazer parte daquele pequeno mundo que a rodeava. Gostava de gente e seu prazer era dar alguns segundos verdadeiros de si a outras pessoas, especialmente a quem lhe sorria sem sequer lhe conhecer. Não queria das pessoas mais do que elas poderiam lhe dar. Contentava com um sorriso e até preferia que fosse só isso, desde que verdadeiro.

Sempre fora uma mulher forte. Forte o bastante para suportar as durezas da vida. Agora ela só queria ser flexível. Com envergadura para compreender as mudanças, as diferentes opiniões, as novas formas de ser e fazer as coisas. E, naquele dia, ela saiu disposta a aceitar o mundo tal qual ele havia se tornado. Diferente daquele que ela cresceu, nem melhor, nem pior. Apenas diferente.

Experimentou não estar madura, pronta e se colocou no meio das pessoas como uma aprendiz qualquer. Aceitou o fato de que não conhecia quase nada e foi aí que a mágica aconteceu. Sua história deixou de ser a mais importante no meio de tantas outras histórias, suas certezas se perderam nas dúvidas encontradas em outros pontos de vista e ficou tudo bem.

Compreendeu que a sua “época” é como um livro de história que alguém tentar explicar para quem não viveu nela. As pessoas podem ouvir, podem aprender, mas não experimentar. Tudo é diferente. Como querer das pessoas a mesma compreensão se o momento é outro, o cenário é outro, o contexto é outro e as pessoas também? Impossível!

Chegou em casa e deparou com a cama tal qual havia deixado. Olhou-se no espelho e seus desvairados cabelos continuavam na cabeça. Embora desvairados, ainda os tinha.

E então compreendeu que mudar não dói tanto assim!

leila@leilarodrigues.com.br

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